Cultura & Espetáculos

Artista ‘antidisciplinar’ vê preconceito na Inteligência Artificial

No Café Filosófico, Biarritzzz diz haver relação entre a era digital e o darwinismo social

Por: Laura de Matos Penariol

O desejo do homem moderno de escravizar não morreu, mas foi transmutado para as máquinas, seres inanimados com características humanas. A análise é da artista pernambucana Biarritzzz, pesquisadora que investiga as interseções entre linguagens, códigos e mídias a partir de uma visão crítica sobre digitalidade e virtualidade.

Biarritzzz: “Nós ainda não superamos a modernidade, os evolucionismos raciais e colonizatórios e o ideário hollywoodiano” (Foto: Laura de Matos Penariol)

Autointitulada “antidisciplinar e multimídia”, ela levantou questionamentos, na quinta feira (26), sobre o movimento descrito como “afrofuturismo” e sua relação com a Inteligência Artificial, em conferência para o Café Filosófico, do Instituto CPFL em Campinas. Biarritzzz enfatizou não ser otimista nem pessimista em relação às tecnologias digitais, mas uma analítica em relação ao fenômeno, além de reconhecer as diversas contribuições presentes no afrofuturismo.

Para explicar o que é afrofuturismo, Biarritzzz recorreu ao pensamento da ativista norte-americana Ingrid LaFleur. Segundo afirmou, é um movimento cultural que imagina pessoas negras no futuro, porém, a construção desse futuro depende da sabedoria anciã de um passado antigo e recente da África e da diáspora africana, explicou.

Segundo avaliou, a Inteligência Artificial se relaciona com a tradição colonial da escravidão e do racismo científico, o que é introduzido pela artista como o raciocínio de que alguns povos são mais evoluídos que outros e que é fundamentado pelo darwinismo social, teoria do evolucionismo darwinista aplicada em seres humanos. Tratando-se da modernidade e do futurismo, o que ela observa é que termos dessa natureza estão intrínsecos há séculos na História.

É uma parte constituinte do homem moderno, ter um outro ser para dele se servir – disse a artista – sendo o escravizado considerado menos humano do que o escravagista e, por vezes, remetido à condição de animal, de mercadoria ou mesmo de uma máquina. “Já que não podemos mais escravizar outro ser humano, o que se tornou viável e ético, nos dias de hoje, é transferir essa categoria da servidão para uma máquina”, ponderou.

A partir deste argumento, Biarritzzz questiona o quanto do senso comum alimentado pela ficção científica, principalmente hollywoodiana, está embebido do pensamento que alimenta o futurismo. O quanto ovacionar as máquinas em detrimento a natureza, o elétrico em detrimento do rural, ou o acelerado em detrimento do natural estão embebidos de narrativas fascistas, higienistas e eugenistas.

Considerando que “a escravidão no Brasil acabou há menos de um século e meio e isso é um pouco mais de duas gerações”, a artista ressalta que “nós ainda não superamos a modernidade, os evolucionismos raciais e colonizatórios e o ideário hollywoodiano de espaçonaves, carros voadores e robôs que dominam o mundo”. Logo – conclui Biarritzzz – o desejo de escravização não está sendo levado para a materialidade da existência, mas sim para o mundo digital.

Segundo as ponderações de Biarritzzz, o desejo por posses e as distorcidas relações de poder que o ser humano exerce são reflexos de imaginários e formas de pensar muito antigos. É reveladora a existência de empresas que investem dinheiro imaginário para colonizar outros planetas e, através de muito dinheiro, habitá-los, como a proposta de Elon Musk, refletiu.

De acordo com a artista, este pensamento de “eu vou para outro planeta e este precisa ser meu, eu preciso ter um território ali”, está disfarçado de algo relacionado ao futuro, quando, na verdade, seria imanente à história da humanidade há tempos. “Essa é uma relação capitalista de ver as coisas, mas também é um pensamento colonizatório”, observou.

Biarritzzz recorreu a um outdoor, na saída do aeroporto de Belo Horizonte, que anunciava os serviços de uma empresa de demolições, no qual a imagem de uma escavadeira se somava à frase “Destruindo o passado e construindo o futuro”. De acordo com ela, é sintomático que isto esteja “em plena luz do dia, em Minas Gerais, justamente o estado em que a mineração causou os dois maiores crimes ambientais da história do país, em Mariana e Brumadinho”.

“Modernidade, evolução, progresso, desenvolvimento, etnocídio, epistemicídio, racismo científico e racismo ambiental, são camadas de uma mesma narrativa, da qual o futurismo também participa, a da destruição”, apontou a artista.

Aqui, a íntegra da conferência de Biarritzzz no Café Filosófico:

Orientação: Prof. Carlos A. Zanotti

Edição: Isabela Meletti


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