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Com efeito fotográfico, “Vê Nus” teve linchamento virtual do artista e críticas à sua curadora
Por: Ana Ornelas, Mariana Dadamo e Sophia Miranda

A mostra que se encerra na próxima sexta-feira (29), no Instituto Pavão Cultural, em Barão Geraldo, custou um breve linchamento virtual ao fotógrafo Kazuo Okubo. Ele descobriu a versão tóxica das redes sociais quando tentou arregimentar voluntárias para o projeto “Vê Nus”, cujo objetivo era fotografar as partes íntimas de mulheres anônimas e submeter as imagens a uma intensa luminosidade, de modo a sobrarem apenas traçados em branco e preto sobre o papel fotográfico.
“Muita gente não conhecia o projeto e pegava o embalo dos ataques para criticar de alguma forma”, revela o fotógrafo ao lembrar a reação de conservadores que levou o número de voluntárias ao portfólio a cair de 250 para 46 adesões no ano de 2019.
A queda impactou o processo e toda a construção da obra, mas Okubo diz acreditar que o fotolivro resultante do trabalho teve o tamanho ideal e manteve o propósito de origem.

A exposição de Okubo, que abriu o 13º Festival Hercule Florence de Fotografia, realizado anualmente em Campinas, reúne 28 imagens em tamanho de 1m X 75cm selecionadas pela curadora Rosely Nakagawa. O projeto nasceu de forma acidental no ano de 2004, quando Okubo trabalhava em um ensaio de nu artístico para uma conhecida.
“Na edição da foto, quando eu clareei tudo em preto e branco, percebi que isso poderia ser o início de uma história”, relatou o fotógrafo, radicado em Brasília, em entrevista por videoconferência. Segundo explicou, a técnica de high-key que utilizou elimina completamente as sombras nas imagens.
Okubo, que teve contato com a arte fotográfica através do pai, Arlindo Okubo, já trabalhou em grandes agências de publicidade. Em 2009, inaugurou a primeira galeria de arte fotográfica do Centro-Oeste, A Casa de Luz Vermelha, na qual realizou exposições, workshops e feiras.

“No início do projeto, minhas principais clientes eram garotas de programa. Elas autorizaram que essas fotos fossem feitas e comecei a juntar essas imagens”, conta Okubo ao comentar as dificuldades que teve para encontrar voluntárias a participar de algo que as deixavam vulneráveis, ainda mais diante de um homem desconhecido.
Depois de ganhar espaço no circuito nacional, Okubo foi convidado, por uma editora de fotografia, a realizar oficinas de nus pelo país. Nas aulas, o artista mostrava o projeto que estava iniciando e, ao final da oficina, algumas mulheres se voluntariavam para participar do ensaio.
Em 2007, Rosely Nakagawa conheceu o trabalho de Okubo em um festival de fotografia. A curadora conta que eles começaram a conversar e se encontravam eventualmente em mostras de outros artistas.
“Começamos a trabalhar juntos quando ele inaugurou A Casa da Luz Vermelha e organizamos exposições. Acho que esse trabalho foi muito importante para que ele entendesse sobre a fotografia fora do ramo da publicidade”, lembra Rosely, também em entrevista por videoconferência ao Digitais.

Em paralelo a essas ações, Rosely acompanhava a coleção que ia se avolumando com o trabalho autoral de Okubo. Ela lembra que foi criticada por editar o projeto, mas afirmou acreditar que o descontentamento vinha da negligência daqueles que não entendiam o propósito. “Era uma discussão muito vazia e superficial”, relata.
Para Nakagawa, o objetivo do trabalho de Okubo é apresentar a liberdade das mulheres, que foram fotografadas do modo mais íntimo, e entender o que é feminino antes mesmo de discutir o que é ser mulher.
Trabalho final e novos projetos
Em 2017, Okubo e Nakagawa conseguiram recursos ao inscreverem o projeto para obter financiamento junto ao Fundo de Apoio à Cultura, de Brasília. Na modalidade em que concorreram, os três melhores trabalhos são financiados em R$ 120 mil para custear duas exposições e a edição de um fotolivro.
Para o fotógrafo, sua proposta não é fechada e pode servir como abertura para uma compreensão sem os preconceitos envolvidos no conservadorismo. Okubo afirma que ainda quer continuar trabalhando em outras obras autorais, algumas já em andamento.
Mesmo com as dificuldades encontradas durante todo o processo artístico para o projeto “Vê Nus”, Okubo acredita ter avançado no trabalho de teorizar o que pode ser a individualidade e a liberdade femininas.
O trabalho de Kazuo Okubo pode ser visitado de quarta-feira a sábado, das 15h às 20h, no Instituto Pavão Cultural, à rua Maria Tereza Dias da Silva, 708, com telefone (19) 99633-4104 para contato. A classificação indicativa é para maiores de 18 anos.
Orientação: Prof. Carlos A. Zanotti
Edição: Melyssa Kell
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