Destaque
Evento teve discussões que levantaram pautas sobre a desigualdade social, gênero e lugar de fala
Por: Vinicius Vilas Boas
A terceira mesa de debates da Jornada de Jornalismo da PUC-Campinas, realizada na noite desta terça-feira (13), discutiu as realidades que cercam os domínios das eleições, periferias e gêneros. Participaram do evento o atual editor-chefe e cofundador da Agência Mural de Jornalismo das Periferias, Paulo Talarico; a jornalista da GloboNews e TV Globo, Isabela Leite e a pesquisadora Carolina Grohmann, autora do livro “O Brasil de Bolsonaro: testemunhos históricos de um país em guerra narrativa”.
Os profissionais refletiram sobre questões importantes à população que mora nas periferias, além de questões ligadas às mulheres e grupos considerados minoritários na sociedade. Para a jornalista Isabela Leite – que levou a filha de um mês ao evento realizado no Campus I da Universidade – há um ambiente hostil para a imprensa atualmente, principalmente para as mulheres. “Nunca foi tão difícil fazer jornalismo como nos dias de hoje”, afirmou. Ela citou exemplos recentes de agressões contra profissionais da imprensa, como as jornalistas Vera Magalhães, da TV Cultura e Amanda Klein, da Folha de S.Paulo, que foram agredidas verbalmente pelo presidente Jair Bolsonaro.

Vera Magalhães foi atacada durante o debate entre presidenciáveis realizado pela Band, no último dia 28 de agosto, ao questionar ao presidente da República a redução da cobertura vacinal no país. Essa não foi a primeira vez que a jornalista sofreu agressões de Jair Bolsonaro. Já a repórter Amanda Klein foi agredida durante o programa “Opinião no ar”, da Jovem Pan, ao questionar Bolsonaro sobre a origem dos recursos com o qual comprou imóveis em dinheiro vivo. Outras repórteres e âncoras já sofreram agressões de Bolsonaro.
A violência contra as jornalistas se manifesta de várias maneiras, segundo Isabela. O assédio é uma delas. Apesar de já ter ouvido alguns comentários constrangedores ao longo de sua carreira, a jornalista contou que nunca se intimidou. “Já encontrei muita gente que tentou me impedir de trabalhar”, disse. Um dos cuidados que ela e outras jornalistas da Globo tomaram para se prevenir da violência física, principalmente nas coberturas externas, foi um curso de segurança pessoal. “Fiz o curso antes de sair da TV para a sua licença maternidade”, contou. Outro cuidado é a preparação para as reportagens. “Para se fazer uma entrevista, hoje em dia, temos que estar muito bem preparados, porque a retórica se fez fundamental”.

O ambiente hostil à atuação dos jornalistas também foi pauta das reflexões do jornalista Paulo Talarico, que se define como ‘cria’ das periferias de Osasco, na Grande São. Editor-chefe e cofundador da Agência Mural, uma agência de notícias que tem como foco divulgar temas relevantes às periferias de São Paulo, Talarico valorizou o papel do jornalista como um divulgador de temas importantes e pertinentes a comunidades que nem sempre encontram espaço nas mídias tradicionais para expor seus problemas.
“É papel do jornalista trazer luz para estes cenários”, disse. Os jornalistas e colaboradores da Agência Mural, segundo ele, estão abertos a ouvir estas comunidades. “É o ‘lugar de fala’ para estas pessoas, que têm histórias que precisam ser contadas, mesmo quando elas não nos pertencem”, se referindo ao fato de que, embora a realidade das periferias não seja condizente com a vida de muitos jornalistas, é papel do profissional estar aberto a ouvir as pessoas. “A gente sabe que não vai mudar o mundo, mas pode fazer a diferença para muitas pessoas”.
A jornalista e pesquisadora Carolina Grohmann, que lançou na Jornada de Jornalismo o livro “O Brasil de Bolsonaro: testemunhos históricos de um país em guerra narrativa”, concordou com os colegas. “A gente vive diariamente em um [ambiente de] racismo institucional, estrutural, sendo uma pessoa branca, com todos os privilégios, podendo escolher. Acho que temos que dar o mais espaço possível para essas pautas”, declarou.

Seu livro reúne 46 testemunhos históricos de pessoas comuns, como ela explica. “Procurei contar nestes relatos histórias por trás de cada voto. São temas e marcos do Brasil, que espelham o resultado do segundo turno das eleições de 2018”.
A jornalista começou a gostar de contar histórias de vida quando foi entrevistadora e escritora de tributos para o site Inumeráveis Memorial (2020-2021) – homenagem às vítimas da Covid-19. Da experiência ela constatou que também é possível produzir conteúdo jornalístico sem transgredir espaços “Acho que nós precisamos ter um domínio muito pleno de quem a gente é, e onde a gente está. É importante entender o lugar de fala e os limites”, disse.
Na sua opinião, é possível para o jornalista se inserir em espaços que não lhes pertencem, “desde que isso esteja totalmente de acordo com o entrevistado. A partir do momento em que você tem escolha e qualquer outra pessoa tem a escolha de estar nesse espaço, acho que podemos nos inserir, sim, sempre de uma forma mais respeitosa possível”. A jornalista se reconhece como uma escutadeira-escritora.
Orientação: Profa. Cecília Toledo
Edição: Marina Fávaro
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