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Educadora revisita Freire no contexto do “pandemônio”

Para Liana Borges, os ideais freireanos impulsionam luta contra negacionismo e ignorância do clã Bolsonaro

Por: Laura Nardi

“É preciso olhar para cada livro que Freire escreveu a partir de seu contexto histórico e, em seguida, relacionar essas obras com o nosso tempo presente, um tempo que está mergulhado no pandemônio governamental, na pandemia e no fascismo bolsonarista”. A afirmação foi feita pela professora Liana Borges, graduada em filosofia e doutora em educação, em seminário que debateu a obra de Paulo Freire para marcar o centenário de nascimento do mais referenciado educador brasileiro, em evento virtual promovido, nesta terça-feira (19) pela Faculdade de Educação da PUC-Campinas.

Segundo disse a docente, apesar dos anos que se passaram desde o início de suas publicações, retornar ao legado do pensador continua necessário na realidade de professores e gestores. Conforme ressaltou, o livro Pedagogia do Oprimido, escrito entre 1964 e 1968, quando Paulo Freire estava exilado no Chile em consequência do período ditatorial, é um dos mais conhecidos trabalhos do educador e um dos fundamentos da pedagogia crítica. Neste escrito, Freire toma como pauta a relação do opressor e do oprimido no cenário vigente à época, em que o regime militar cumpria o primeiro papel e a população que aspirava por liberdade, o segundo.

Liana Borges: “Ele abordaria também as fake news e a sabotagem à Ciência” (Imagem: Plataforma Teams)

Fazendo alusão à obra, a professora explicou quem, na sua avaliação, seriam os novos opressores e oprimidos do Brasil contemporâneo. “Aqueles que morreram porque não tiveram o direito à vacina, por conta do negacionismo instaurado no governo nacional, são os oprimidos”, disse ao imputar a responsabilidade ao que chamou de “clã Bolsonaro”.

“Certamente, se Paulo Freire escrevesse Pedagogia do Oprimido em 2021, ele abordaria também as fake news e a sabotagem à Ciência”, completou a professora Liana.

De maneira análoga, a aluna de Ciências Sociais Victoria Bastos Ferreira Mantilha, presente no debate, mencionou a recente lei sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, que retira mais de R$ 600 milhões de verbas destinadas para a ciência e pesquisa. “Isso é muito sério, porque compromete o avanço e o exercício da educação”, disse.

Parafraseando Freire, a professora Liana acrescentou que os opressores têm interesse na manutenção das injustiças e da desigualdade, as quais interferem no poder da libertação e da democracia. Assim, é destinado aos oprimidos o trabalho de “revolução pela construção de um mundo melhor” a partir da esperança, para que esses desajustes sociais possam, um dia, senão desaparecer completamente, ao menos serem corrigidos ou amenizados. Este conceito é sustentado em Pedagogia da Esperança, obra de Freire produzida em 1992.

Professora de pedagogia e ciências sociais da PUC-Campinas, Ana Paula Fraga Bolfe, também participante do seminário, explicou que, de acordo com o dicionário, a palavra “esperança” faz relação com o substantivo “espera”. Ou seja, não há movimento para o alcance do desejo, apenas uma articulação estagnada sobre ele. Porém, em Paulo Freire, o termo ganha outro contorno, passando de uma categoria passiva para ativa, afirmou.

“A esperança se torna o verbo ‘esperançar’ e, logo, instiga à mobilização para a mudança do mundo”, apontou Ana Paula. Assim, a expressão evidencia a importância da esperança como força motriz, uma vez que qualquer luta pela transformação da realidade não acontece sem essa concepção, porque sem a esperança enraizada no combate, perde-se o propósito.

“Por mais complicado que seja esse cenário de intolerância, morte, retrocesso e crise que nos assombra, é preciso esperançar um Brasil melhor e mais justo para todos”, completou.

Ana Paula Bolfe: “A esperança se torna o verbo esperançar” (Imagem: Plataforma Teams)

Dentro de Pedagogia da Esperança, o antagônico da esperança se baseia como imobilizador da ação, fazendo crer no fatalismo de que não é possível mudar ou recriar o mundo. Paulo Freire acreditava – disse a docente –que a desesperança é um programa organizado pelos opressores – por aqueles que querem fazer com que a esperança decaia. Sobre isso, Liana disse que, no Brasil, mais do que um programa de desesperança, há uma política governamental “necrófila”.

“Temos uma política pública organizada para matar a universidade, a Amazônia, os indígenas, as mulheres, os jovens negros e, agora, as pessoas com Covid”, observou.

A partir desta análise, Liana afirmou que, se atualmente o Brasil experimenta uma política pública fundamentada na morte, é necessário fazer com que os princípios de Paulo Freire vigorem na condição de uma pedagogia biófila, que defenda a vida e não o ódio. “Como posto pelo educador, nós temos a possibilidade concreta de mudar e transformar. A questão é mudar o que? Transformar o que? E para onde”, indagou.

A pesquisadora ainda pontuou que da esperança nasce a indignação e justa ira quando os direitos humanos são sonegados ou roubados. Liana citou a recente fala do ministro da Educação, Milton Ribeiro, que afirmou à TV Brasil que a universidade deveria, na verdade, “ser para poucos”. A docente criticou a postura do ministro ao ponderar que “se isso não me provoca indignação, é porque a desesperança está ganhando a batalha contra a esperança”. Para ela, quando as pessoas se acomodam, acabam compactuando mesmo que indiretamente com os escândalos e problemas sociais que afetam a todos diretamente. “Não podemos nos deixar cair nessa desesperança. A democracia está em risco”, advertiu.

Orientação: Prof. Carlos A. Zanotti

Edição: Fernanda Almeida


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