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Projeto dá ‘outra vida’ para fotos resgatadas do lixo

Catadores de recicláveis são “garimpeiros” em projeto que transforma fotografias em obras de arte



Fotografias resgatadas da reciclagem, em projeto artístico que conta com o trabalho voluntário de catadores de recicláveis, em Campinas (Imagem: YouTube)

Por Oscar Nucci

A apresentação do projeto artístico no qual catadores de recicláveis se transformam em garimpeiros de fotografias descartadas no lixo – por pessoas para as quais as imagens já não têm significado algum – marcou o encerramento do XII Festival Hercule Florence, na tarde desta sexta (18), em Campinas, em evento remoto transmitido no Youtube.

A iniciativa, que atende pelo sugestivo título reunido na sigla ACHO – Arquivo Coleções de Histórias Ordinárias, busca ressignificar fotos jogadas fora a partir de intervenções artísticas. Outra de suas funções é servir de fonte de pesquisa para historiadores, antropólogos, arquitetos ou demais interessados em temas ligados à memória ou à arqueologia urbana.

“São fotografias órfãs, que perdem a referência primeira, da família, e ganham liberdade para regressar em outros lugares”, descreveu Fabiana Bruno, graduada em Jornalismo pela PUC-Campinas e pós-doutora em Antropologia Social, pela Unicamp. Ao lado da fotógrafa e artista plástica argentina Estefania Gavina, ela relatou todo o projeto que já acumula um acervo superior a 20 mil fotografias, das quais 3 mil já foram digitalizadas.


A jornalista e antropóloga Fabiana Bruno: “fotografias órfãs, que ganham liberdade para regressar em outras funções” (Imagem: YouTube)

Fabiana frisou, em sua participação no evento, a importância desta “reciclagem fotográfica” através do trabalho de artistas como Estefania, autora de obras e exposições que foram exibidas durante a apresentação. Em uma das intervenções, Estefania substitui o rosto por pedras colocadas sobre o papel. Em outra, antigas molduras acolhem imagens que remetem a um passado distante.

“Uma das metas importantes do ACHO não é ser um arquivo que cataloga e preserva, mas que promove pensamentos e instiga produções artísticas”, descreveu Fabiana.

Foi a partir de casas em demolição – que se tornam acessíveis ao trabalho dos catadores – que o arquivo começou a ser montado pelas pesquisadoras. “Gostamos de vê-los como nossos garimpeiros”, disse Fabiana em relação à cooperação que obtém espontaneamente dos catadores que se engajaram no projeto.

O primeiro deles, conhecido como Jotabê, ficava na região central de Campinas, próximo ao local onde Estefania morava. Em uma conversa com o catador, a artista descobriu que estas fotos antigas eram até então recicladas como papel.  A partir de Jotabê, a fotógrafa passou a ter contato com outros catadores, como Rodrigo, César e Ado, que sempre lhe entregavam fotos encontradas entre os recicláveis que recolhiam.

O catador de recicláveis Ado, um dos garimpeiros do projeto desenvolvido em Campinas (Imagem: YouTube)

“Eu entrava na minha residência e tinha caixinhas deixadas por eles. Eram pequenas grandes surpresas de fotografias”, relatou Estefania ao descrever sua relação com os garimpeiros de imagens descartadas.

No ACHO, as fotos não são classificadas, categorizadas ou mesmo identificadas, já que o propósito “não é ser um arquivo tradicional”, como disse Fabiana. Quando chegam, as imagens são agrupadas com os nomes dos catadores e anotada a data em que foram salvas do abandono, sem necessariamente existir um trabalho investigativo das identidades ali presentes.

Obra da artista plástica Estefania Gavina, produzida a partir da reciclagem de fotos descartadas (Imagem: YouTube)

“Não temos por pressuposto fazer o trabalho de detetives”, disse a pesquisadora Fabiana, que é responsável pelo catálogo das fotografias resgatadas.

A pesquisadora procurou reforçar todo o cuidado ético em relação às imagens. Segundo disse, tanto os responsáveis pelo arquivo quanto os artistas e estudiosos que “adotam” as fotografias cedidas pelo ACHO se comprometem ao uso respeitoso das imagens que empregam em seus trabalhos.

Até o momento, não aconteceu, mas na hipótese de algum parente de pessoa fotografada reconhecer um familiar na foto em alguma eventual exposição artística – e quiser resgatar o original – ele terá esse direito assegurado. “A gente ficaria feliz de poder promover o encontro destas imagens com alguém que teria alguma relação familiar ou próxima”, comentou Fabiana.

Aqui, acesso à apresentação do projeto ACHO, em canal do YouTube.

Orientação: Prof. Carlos A. Zanotti

Edição: Oscar Nucci


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