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Queda na natalidade redesenha o futuro econômico do Brasil

Busca por estabilidade, carreira profissional e autonomia leva mulheres a terem menos filhos e pressiona cenário financeiro e social do País

Por Letícia Bordinhon e Maria Fernanda Esmeriz

Em 1960, a média de filhos por mulher era de 6,3. Esse índice diminuiu ao longo das décadas, chegando a 5,6 em 1970, 2,9 em 1991, 2,4 em 2000, 1,9 em 2010 e, mantendo a tendência de queda, atingiu 1,6 em 2026. No Brasil, a transição demográfica apresenta particularidades: de um lado, há mulheres que optam por não ter filhos e, de outro, observa-se o adiamento da maternidade para depois dos 30 anos. A combinação desses dois padrões de fecundidade influenciará o futuro próximo de um país cuja população está envelhecendo.

Hoje, a Taxa de Fertilidade Total (TFT) no Brasil registra 1,6 filhos nascidos vivos por mulher – quantidade abaixo do necessário para reposição populacional, sem precisar de imigração internacional. O número da taxa de Fertilidade de Nível de Substituição representa 2,1 filhos por mulher, e, um valor abaixo disso, pode causar o declínio da população nativa, de acordo com o Worldometers – site que fornece estatísticas globais em tempo real. Com o declínio da população nativa, é projetado o envelhecimento da população e maior peso sobre a População Economicamente Ativa (PEA) – o conjunto de pessoas com idade para trabalhar que estão empregadas ou procurando emprego, formando a força de trabalho de um país.

Infográfico, gerado por IA (Gemini), mostra a taxa de fertilidade total no Brasil (Fonte: Worldometers)

Reflexo histórico

A estrutura demográfica brasileira não está mudando por acaso. Por trás da queda da taxa de fecundidade, reside uma percepção aguda das mulheres sobre as engrenagens do mercado de trabalho e da vida doméstica – e o impacto na economia pode se dar de várias formas.

Uma possível transição demográfica do País, com as mulheres tendo menos filhos, pode ter vários motivos. A economista Daniela Scarpa Beneli explica que, como um reflexo histórico, hoje mais do que nunca há a maior participação feminina na vida pública, isto é, fora do ambiente doméstico. Esse movimento é o resultado de um longo percurso histórico de lutas por direitos que mudaram a prioridade central da vida da mulher.

Os direitos trabalhistas femininos no Brasil são fruto de um processo de transição de uma exclusão total para um cenário de direitos formais – que ainda buscam efetivação prática no cotidiano laboral feminino.

O marco inicial deu-se em 1932, com o direito ao voto e o Decreto 21.417, que proibiu a demissão por gravidez e estabeleceu a igualdade salarial. A CLT de 1943 instituiu a licença-maternidade, mas a autonomia real avançou apenas em 1962, quando mulheres casadas foram liberadas da autorização do marido para trabalhar. A Constituição de 1988 igualou homens e mulheres em deveres, e leis subsequentes, como a criminalização do assédio sexual (2001) e a Lei Maria da Penha (2006), expandiram essa proteção. Segundo Daniela, o século XXI trouxe um “divisor de águas” e as mulheres tornaram-se maioria no ensino superior, elevando a representatividade no mercado formal de 38% nos anos 2000 para até 45% atualmente.

A diminuição de filhos por mulher também está relacionada com o desenvolvimento de métodos contraceptivos. Ao longo da história, os meios de evitar a gravidez passaram por uma evolução significativa, acompanhando os avanços científicos e as mudanças sociais. Desde a Antiguidade, já se utilizavam formas rudimentares de prevenção, como preservativos feitos de bexigas e intestinos de animais. Com o tempo, esses métodos foram sendo aprimorados, dando origem às camisinhas de borracha no século XIX, mais seguras e eficazes.

Paralelamente, surgiram alternativas voltadas ao corpo feminino, como o diafragma, desenvolvido no século XIX, e, mais recentemente, a camisinha feminina. Os dispositivos intrauterinos (DIU), cuja origem remonta à Antiguidade, também evoluíram bastante, passando de práticas primitivas para modelos modernos, como os de cobre e os hormonais.

Já no século XX, os métodos hormonais marcaram uma grande transformação, especialmente com o desenvolvimento da pílula anticoncepcional, que ampliou o controle sobre a fertilidade. A partir dela, surgiram outras opções, como os implantes e os DIUs hormonais, que oferecem praticidade e longa duração. Além disso, métodos cirúrgicos como a laqueadura e a vasectomia se consolidaram como alternativas definitivas.

Autonomia da mulher

Ao mudar a dinâmica da sociedade, ter muitos filhos já não faz parte do projeto de vida. A mulher uma vez inserida no mercado de trabalho, ter menos filhos, ou nenhum, passa a ser uma consequência. O Cientista Social Caue Nunes explica que as mulheres estão decidindo apostar em suas carreiras, e isso faz com que a tendência de ter cada vez menos filhos aumente.  “Eu só teria filhos quando eu já estivesse em um determinado momento da minha carreira, para que eu conseguisse conciliar as duas coisas”, contou a estudante de Relações Públicas, Gabriela Macioni, de 20 anos.

Ela disse também que há alguns anos não tinha vontade de se tornar mãe, “achava até meio bizarro o fato de gerar uma criança”, mas que isso mudou ao ouvir relatos de mães que sonhavam em ter filhos, mas que, por algum motivo, não podiam. O instinto materno dessas mulheres a comoveu, trazendo um sentimento de empatia e a vontade de gerar uma vida.

Além do profissional, outro motivo dessa decisão pode estar ligado apenas ao desinteresse em ser mãe. “A razão de eu não querer ter filhos é um pouco abstrata. Eu simplesmente não quero, não é uma vontade e eu não me vejo como mãe”, declara a estudante de Design Digital, Ana Victória Lima de 25 anos. Ou também, pode estar relacionado ao interesse de se dedicar em outras áreas da vida, sem incluir a maternidade, como conta a estudante de Publicidade e Propaganda, Amanda Roscito, de 19 anos. “Tenho uma vontade muito maior de investir em mim e estar sempre evoluindo em quaisquer outros quesitos da minha vida: profissional, amorosa, mental”.

Maternidade deixa de ser prioridade na vida das mulheres (Foto: Leticia Bordinhon)

Para a estudante de Publicidade, Marina Benite, de 21 anos, “existe uma expectativa de que a maternidade faz parte do caminho já traçado da vida da mulher”. Nesse cenário, há uma pressão da sociedade em cima das mulheres, que, muitas vezes, vem da própria família. Comentários, brincadeiras e comparações transmitem um sentimento de cobrança nas jovens. A publicitária, Thais Goes, de 21 anos, compartilha que é “um grande desejo dos meus pais serem avós e, às vezes, sinto como se existisse uma certa ‘obrigação’ de realizar esse sonho deles”. No mesmo contexto, Ana Victória, está decidida que não quer ter filhos, mas se sente pressionada, pois depois dela, sua linhagem familiar acabaria. Mas, mesmo com certa preocupação, não tem dúvidas. “Eu não quero ter filho”.

A psicoterapeuta Larissa Barbosa avalia que “independente de qualquer expectativa é importante analisar qual projeto de vida a mulher traçou para si própria, e se suas escolhas e decisões estão de acordo com o rumo e com o plano diretor de vida que ela tem para si”. Para ela, a escolha de ter um filho implica na diminuição, mesmo que temporária, de seu papel profissional, Por isso, muitas vezes optam por adiar a maternidade ou não ter filhos. Larissa entende que “esse movimento espelha questões importantes em termos de autonomia e escolha. Não se trata apenas de números, mas de uma mudança profunda na forma de como a vida é pensada, sentida e organizada”.

Maternidade e Estabilidade

Dados do Censo Demográfico de 2022 indicam que a idade média das mulheres ao terem filhos foi de 28,1 anos, representando uma tendência cada vez mais comum: o adiamento da maternidade. Thais deseja ter filhos após os 30 e afirma tomar todos os cuidados para evitar uma gravidez no momento. Ela acredita que esse acontecimento pode prejudicar seu crescimento profissional. “Tenho planos de carreira e de estudo que ainda quero construir, e ter um filho agora desestruturaria tudo isso. Muitos dos meus sonhos e objetivos seriam adiados”, reconhece.

A decisão em adiar a maternidade está ligada à busca por estabilidade financeira, um objetivo cada vez mais difícil de alcançar. O economista Luiz Felipe Portelinha apresenta uma comparação em que nos anos 80, uma família “tradicional” onde o homem, com apenas um emprego, conseguia dar um sustento para a casa toda – com esposa e 3 ou 4 filhos – hoje, essa realidade dificilmente se concretiza. O aumento do custo de vida, para adquirir uma moradia e um automóvel, por exemplo, faz com que essa segurança econômica leve tempo para ser atingida. “Hoje em dia, a gente demora muito mais para estabilizar a nossa vida financeira, e, geralmente as pessoas que estão planejando filhos vão ter o filho depois dessa estabilidade. Só que às vezes essa estabilidade chega aos 40, 45 anos”, completa.

A estudante de Relações Internacionais, Ana Clara Nonato, de 23 anos, relata que já foi taxada de “solteirona” em sua família por ainda não estar em um casamento e se sente pressionada pela família para se tornar mãe, porém garante que só terá um filho se possuir uma boa estabilidade financeira e caso não adquira essa estabilidade, não pretende tê-los. “Eu não vou deixar minha carreira de lado pra ter um filho. Hoje, seria inimaginável pra mim”.

A instabilidade financeira é um fator determinante quando se coloca no papel os prós e contras para ter um filho. Em uma pesquisa quantitativa feita para essa reportagem, de 67 mulheres entre 19 e 25 anos, 64,2% consideram que sua estabilidade financeira é o principal fator para adiar ou desistir da maternidade. Para Amanda Roscito, essa responsabilidade pesa bastante: “Nunca tive vontade, mas, hoje mais do que nunca, entendo que estamos passando por um momento muito complicado na sociedade e no mundo. Tudo é muito caro, muito perigoso, é uma responsabilidade inimaginável ser mãe/pai nos dias de hoje. Sempre foi, mas atualmente sinto que isso se tornou 100 vezes mais desafiador”.

Infográfico, gerado por IA (Gemini), mostra motivos do adiamento da maternidade (Fonte: pesquisa quantitativa)

A mulher no Mercado de Trabalho

Na pesquisa, 74,6% acreditam que ter um filho prejudicaria o seu crescimento profissional atual. A persistência da dupla jornada – a sobrecarga do trabalho doméstico não remunerado – atua como um obstáculo severo à ascensão a cargos de liderança. A responsabilidade desigual pelo cuidado com a família força muitas mulheres a reduzir a carga horária ou abdicar de promoções. Além disso, o mundo corporativo frequentemente estigmatiza aquelas que buscam flexibilidade, como o trabalho remoto, rotulando-as como “menos comprometidas” ou “menos competentes”. Esse preconceito não apenas impede a progressão na carreira, mas compromete a saúde física e emocional das trabalhadoras, gerando um ciclo de esgotamento e restrição do desenvolvimento pessoal.

Apesar dos avanços, Daniela problematiza que “a inserção não significa uma melhor ocupação”. Muitas escolhas profissionais ainda são definidas por marcos sociais e relações historicamente estabelecidas como femininas, concentrando mulheres em áreas como educação, ciências sociais e saúde. “Então, a gente percebe que a mulher escolhe a sua qualificação baseada um pouco naquilo que ela acha que ela tem um perfil. Então, a mulher é mais doce, ela é mais cuidadora.”, reflete a economista.  Para que ocorresse uma mudança desse padrão, as mulheres foram atrás de outras conquistas e quebras de rupturas. “Como fazer isso? Não necessariamente eu vou ter filhos, não necessariamente eu vou ter que cuidar das tarefas domésticas. Então, acho que, além de optar por ter filhos mais tarde, ela quer se colocar, ela quer ser uma líder, ela quer ser uma pessoa que ganha mais, que tenha um salário maior.” A prioridade central da vida da mulher deixa de ser a procriação e passa a ser focada nela própria. “Deixar para ter filhos mais tarde ou optar por não ter filhos, demonstram que as mulheres querem ser líderes. E esse é um bom legado que será levado para as próximas gerações. Então, as mulheres podem agora, ter tempo para dedicar ao trabalho sem sentir culpa”, defende.

A economista afirma que as mulheres estão mais conscientes da dificuldade de conciliar trabalho, vida social, e rotina familiar. Assim, o autocuidado entra em jogo. Mulheres têm procurado o próprio bem estar e vaidade – coisas que, com a chegada de um bebê, teriam menos tempo e energia para se preocupar. É o caso da estudante Amanda que não tem vontade de ser mãe. “Tenho uma vontade muito maior de investir em mim e estar sempre evoluindo em quaisquer outros quesitos da minha vida, profissional, amorosa, mental, etc.”

Outra questão muito discutida, é o impacto na aposentadoria, onde poucos jovens trabalhando, podem não cobrir os custos dos idosos, fazendo com que eles tenham que trabalhar mais. Portelinha discorda que essa seja uma consequência diretamente ligada à decisão das mulheres em não terem filhos. Ele acredita que independente das escolhas individuais, o estado deve ser capaz de arcar com esses custos. “Qual é a capacidade do estado de se planejar frente a isso e conseguir suprir o orçamento público?”, questiona. “O orçamento público é uma discussão sobre distribuição. Tudo faz parte do planejamento e do interesse desse orçamento. O aumento na taxa Selic (taxa básica de juros definida pelo Banco Central), ao mesmo tempo que trava um pouco a criação de emprego, também captura uma parte significativa do orçamento público, que poderia tá indo por exemplo, para pagar os aposentados”, completa.

Pirâmide etária

O menor número de nascimentos no Brasil, desde 1976, foi em 2023, quando ocorreu um recuo de 0,8% em relação a 2022. Os dados do Censo Demográfico de 2022 indicam que as pessoas estão tendo cada vez menos filhos. Cauê Nunes explica que essa estatística não é pontual, mas faz parte de um processo histórico. “Como o Brasil está fazendo essa mudança (menor número de nascimentos) muito rapidamente, a gente está com menos estrutura social para esse processo de envelhecimento da população”.

Infográfico, gerado por IA (Gemini), demonstra a diferença das pirâmides etárias de 1990 e 2026 (Fonte: Worldometers)

A baixa taxa de fertilidade, no contexto geral, reflete na pirâmide etária do Brasil. “Essa taxa de natalidade menor, vai fazer com que daqui a algum tempo, tenha mais pessoas mais velhas do que jovens”, explica a economista. Pensando na expectativa futura para a economia, Daniela comenta a possibilidade de haver mudanças na atual legislação. “Esse sistema previdenciário funciona por uma troca de gerações. Se tiver menos pessoas contribuindo, menos pessoas trabalhando, vão ter menos possibilidades de obter recursos. Isso pode exigir do governo uma mudança de tributos, fazendo com que as pessoas trabalhem por mais tempo”, finaliza.

Com a base da pirâmide cada vez mais estreita, o País se prepara para uma nova dinâmica social. Para Cauê Nunes, esse movimento aconteceu de maneira acelerada. “O Brasil não está preparado. A gente envelheceu muito rápido sem ter a devida preparação social, cultural e econômica”. Ele aponta que as consequências são diversas, desde escolas com menos demandas, diminuindo o tamanho da classe ou até mesmo fechando, até em transformações no próprio mercado de trabalho, em que algumas áreas e profissões encolhem enquanto outras crescem.

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Gabriel Rosa

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