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Sinistros de trânsito com vítimas sobrecarregam hospitais da RMC, apesar de ser uma internação evitável
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Por Gabriela Belloto, Bruno Dantas e Washington Coutinho
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Com uma linha de pesquisa na Unicamp, baseada nos dados da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), dois cirurgiões da área de trauma constataram que os sinistros de trânsito, hoje, em Campinas, matam mais do que os homicídios. Durante a pandemia, a taxa de mortalidade chegou a variar de 10,46 para 13,76 por 100 mil habitantes. Tendo motociclistas como principais vítimas, em 2025 eles representaram o maior percentual de mortes no trânsito. Com tal impacto, o sinistro de trânsito se tornou um fardo para a saúde pública ao sobrecarregar os hospitais, apesar de ser evitável.

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Avaliando os períodos antes, durante e pós-pandemia, a mudança na curva de casos e o perfil epidemiológico das vítimas, nasceu a tese de doutorado do pesquisador e cirurgião do trauma Vitor Favali Kruger. Defendida na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, sob orientação do chefe da Disciplina de Cirurgia do Trauma, Gustavo Pereira Fraga, a pesquisa analisou 17.736 sinistros de trânsito, entre 2019 e 2023, dos quais 406 foram fatais. “Pensamos na alteração que o período pandêmico poderia ter causado, se impactou os sinistros e os óbitos, assim como alguma mudança para o que vivemos hoje em Campinas”, explica Kruger. Ouça áudio:
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Conforme os dados do Boletim Mensal de Óbitos no Trânsito, houve o aumento de 6% dos óbitos nas vias urbanas de janeiro a setembro de 2025. E isso tem impacto direto em toda a cadeia do sistema de saúde. “Desde o pré-hospitalar, como o SAMU, para o pronto-socorro, no atendimento inicial, até um hospital de referência que às vezes pode demandar equipes com 10 especialistas para um único traumatizado,” explica Fraga. Conforme a pesquisa, o impacto econômico é significativo e global, pois o custo anual das lesões no trânsito (custos de saúde, perda de produtividade e incapacidade a longo prazo), é estimado entre 1% e 3% do Produto Interno Bruto (PIB), podendo chegar a 6% em alguns casos.
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E por que o custo é alto? São quase 70% em despesas hospitalares. O Dr. Vitor explica que, por ser um paciente complexo que “precisa de imagem, banco de sangue, múltiplas equipes atendendo, cirurgias,” se torna uma jornada “cara” para o Sistema Único de Saúde (SUS). O paciente ainda pode ter sequelas permanentes, sem reabilitação e deixar de produzir. Portanto, torna-se um custo direto para a saúde e indireto para a sociedade.
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Caio César Germano Oliveira de 22 anos, viveu isso na pele. No dia 27 de julho de 2024, ele usava a moto como meio de locomoção. E passando por um radar, há 40km/h, durante uma curva, sua moto teve um problema no motor que acabou “morrendo”. Com uma grande movimentação dos veículos ao seu redor, Caio tentou deslocar a moto para a calçada, mas acabou batendo no poste. Seu irmão, João Victor Germano, que estava na garupa, o prensou no poste com o impacto. Neste dia, Caio perdeu o baço e o rim esquerdo, além de quebrar o braço na parte do úmero.
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Seu atendimento se deu inicialmente no Hospital Mario Gatti para a cirurgia emergencial, com duração média de três horas, após o acidente que desencadeou um afastamento de 20 dias, afetando sua saúde até a estabilização. O processo de cicatrização de seu braço durou um ano, por necessitar de uma cirurgia no momento que seu úmero havia soltado um do outro. “Fiquei um ano inteiro nesse processo de não poder ir para o trabalho,” conta Caio. Nesta segunda parte, seu atendimento e cirurgia foram realizados no Hospital Madre Theodora, com convênio médico.
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PERFIL DA VÍTIMA
Com uma média de cinco vítimas graves de trânsito por dia no Hospital das Clínicas da Unicamp (HC), onde Fraga atua, a maioria delas são motociclistas. E segundo os mesmos dados da EMDEC, essa informação é comprovada quando os óbitos de motociclistas foi 200% maior que setembro de 2024.
“O perfil mais vulnerável do trânsito é o jovem masculino motociclista,” pontua Kruger. Mesmo que a vulnerabilidade no automóvel, em quesitos de proteção, seja um dos fatores de risco, há também o contexto de exposição pela necessidade da força de trabalho. “Estamos falando daqueles entre 19 a 49 anos que são normalmente os que trabalham para sustentar a casa, quem paga imposto, quem gera produção e quem é a força de trabalho,” esclarece o Kruger ao destacar como o impacto na economia é evidente desde a perda da produção até a perda de contribuição.
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Sustento em duas rodas é o que move Maicon Pereira de Andrade da Silva (Foto: Bruno Dantas)
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Maicon Pereira de Andrade da Silva, de 33 anos, motoboy, em Sumaré, mora com a esposa e os filhos e destaca que, “a moto é a principal fonte de renda da minha família.” Maicon sofreu um acidente de moto no dia 17 de novembro de 2024, ao fazer uma ultrapassagem pela esquerda e o carro realizar uma conversão à esquerda sem dar seta, fazendo com que atingisse a lateral de sua moto. Passando pelo Hospital Mario Gatti, precisou ficar de repouso por cinco dias, “isso afetou muito minha vida financeira,” desabafa.
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Apesar do cenário preocupante, é importante lembrar que os sinistros de trânsito são evitáveis. “Mais de 90% dos acidentes poderiam não acontecer; muitos resultam de distrações simples, como exceder a velocidade, usar o celular ou dirigir após beber”, afirma o Dr. Gustavo Fraga. A Emdec, parceira na pesquisa, destaca que a mudança depende de ações coordenadas e contínuas, pois “acreditamos no tripé educação, comunicação e fiscalização como estratégia para reduzir mortes, especialmente entre motociclistas.”
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Lembrando que em 2025 os motociclistas foram o foco das ações do Maio Amarelo e da Semana da Mobilidade Urbana. Além do comportamento individual, uma malha urbana mais segura – com vias bem sinalizadas, manutenção adequada e fiscalização constante – é fundamental para diminuir sinistros, poupar vidas e aliviar a sobrecarga do sistema de saúde por um problema que, na maioria das vezes, poderia ser prevenido.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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