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Psicologia da generosidade por trás dos presentes

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Ciência mostra como o presentear, gesto comum no Natal, ativa o cérebro, desperta emoções e fortalece vínculos

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Texto: Davi Caberlin e Helena Rocha
Imagens: Davi Caberlin

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No Natal o gesto de presentear volta a ocupar espaço central no comportamento humano. É uma tradição para alguns, uma simples data comercial para outros, no entanto dar presentes ativa mecanismos emocionais, sociais e cognitivos profundos. Quando escolhemos algo para alguém ou pensamos em como agradar uma pessoa querida, nosso cérebro entra em ação, hormônios são liberados, regiões específicas se ativam e um ciclo de bem-estar se abre.

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Segundo a Psicóloga e Neuropsicóloga Marcia Adriana Galvani, esse comportamento é mais poderoso do que parece. “Presentear é uma das mais complexas e poderosas ferramentas para provocar conexão entre pessoas. A neurociência mostra que esse gesto libera dopamina e oxitocina, associadas ao prazer e ao bem-estar”, explica. Para ela, quando o gesto é espontâneo, o cérebro interpreta como algo positivo, ao escolher o presente que representa cuidado, lembrança ou afeto, o cérebro libera hormônios que trazem sentimentos de alegria e bem-estar, colaborando para a manutenção da saúde mental.

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Para Marcia, essa diferença entre receber presente e presentear é emocional: “A liberação de dopamina é parecida, mas a sensação de presentear é mais perene, mais profunda. Por isso algumas pessoas se sentem mais felizes ao presentear do que ao receber.” A psicóloga reforça que, além dos aspectos químicos, presentear é um gesto simbólico, que funciona como uma extensão de nós mesmos. Um presente carrega intenções, memórias, referências afetivas e até pedaços da história compartilhada entre duas pessoas. “É a materialização do cuidado”, afirma Márcia. Nesta época do ano, essa dinâmica se intensifica, o Natal funciona como um marcador emocional, que desperta saudade, reconciliação e o desejo de reafirmar vínculos.

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A ciência reforça esse entendimento. De acordo com a mestra em Ciências – Neurologia Gabriella Conte, o ato de presentear ativa áreas muito especificas do cérebro. “O estriado ventral, o córtex pré-frontal medial e o córtex temporoparietal entram em ação, são regiões associadas ao processamento das emoções, tomada de decisão e empatia”.

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Neuropsicóloga, Marcia Adriana Galvani // Mestra, Gabriella Conte // Daniel dos Santos Carvalho

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Gabriella destaca que essa sensação tem explicação biológica: “A dopamina é o neurotransmissor que ‘marca’ comportamentos recompensadores. Quando somos generosos, ela reforça positivamente a ação, aumentando a sensação de bem-estar. É como se o cérebro dissesse: ‘faça isso de novo, foi bom para você’”. Embora receber presentes seja prazeroso, a neurocientista explica que os dois estímulos são diferentes no cérebro. Receber ativa o sistema de recompensa de forma direta, enquanto dar tende a gerar um prazer mais duradouro.

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A empatia tem papel direto nesse processo. “Ela ativa regiões como a ínsula anterior e o córtex cingulado anterior, que nos ajudam a ‘sentir com o outro’. Quando percebemos o impacto positivo do nosso gesto, essas áreas intensificam o prazer e reforçam o comportamento generoso. É literalmente o cérebro mostrando que se importar com alguém faz bem”, afirma Conte. Ela reforça ainda que o cérebro pode ser treinado para ser mais generoso. “Repetir gestos de generosidade fortalece circuitos neurais ligados ao prazer, à empatia e à cooperação. Com o tempo, ajudar se torna mais natural e recompensador, como se o cérebro fosse afinando essa habilidade emocional.”

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E essa mistura entre emoção e intenção aparece de forma muito concreta na experiência de quem transforma o ato de presentear em parte da rotina. É assim para Daniel dos Santos Carvalho de 19 anos, que sempre encontra no gesto uma maneira de expressar aquilo que, às vezes, não consegue colocar em palavras. “O ato de presentear ajuda pessoas assim como eu, que não são tão boas com palavras, a demonstrar o carinho que a gente sente pelas outras pessoas. Eu me sinto muito bem e muito feliz quando vejo que a pessoa gostou do presente.”

 Daniel explica de onde veio esse hábito de presentear: Confira o áudio

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Tanto a ciência quanto as vivências individuais convergem para uma mesma conclusão: presentear é um gesto que atravessa a biologia, a cultura e o afeto. É uma forma de contar ao outro, sem palavras, que ele importa. “O ato de presentear não é só você comprar um presente caro, é você comprar uma coisa, nem que seja uma coisa simples e lembrar da pessoa”, afirma Daniel. Presentear ainda é uma das linguagens mais poderosas que temos para manter vínculos vivos, criar memórias e reforçar a nossa capacidade humana de cuidar.

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Orientação e edição: Adauto Molck

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