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ANÁLISE – Espetáculo apresenta a criação do mundo pela cosmogonia iorubá com afeto, música, conhecimento, música e memória afetiva
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Texto e imagens: Amanda Poiati
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Assistir novamente a OlorumAyé: uma história iorubá traz uma sensação rara, de retorno. Não apenas ao continente africano, mas a algo que reconhecemos como parte da nossa própria memória. Desde os primeiros movimentos em cena, é perceptível como a peça, assim como Olorum é o principal Deus dos iorubás, também tem um papel essencial na cultura imaterial.
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A construção do espetáculo no palco pode despertar lembranças. Quando as folhas de mangueira são lavadas na bacia, somos levados ao cheiro da casa da avó, que mesmo com acesso à tecnologia ainda fazia tudo de forma manual, com cuidado e saberia, sem medo do tempo. É um gesto carregado de memória afetiva que a peça nos devolve com força. OlorumAyé revive uma ancestralidade sem permitir o esquecimento, permanecendo vivo.

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A acessibilidade em Libras se manteve como um ponto forte. Toda a apresentação foi acompanhada pela intérprete, que seguia muito bem as músicas e as falas em palavras iorubás. A falta de iluminação adequada pode ter prejudicado parte dessa experiência, mas a escolha segue sendo extremamente necessária.
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OlorumAyé funciona porque abraça o público. Somos convidados a entrar no palco, a dançar com Exu, a sentir o vento de Oiá, a acompanhar a simplicidade de Nanã moldando o ser humano no barro. A narrativa de Nanã continua sendo a que mais toca, pela forma como lembra a essência de quem somos. A vida moldada com terra, com simplicidade, com conhecimento ancestral e a volta ao barro que nos traz a sensação do quanto a vida pode ser breve.
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O espetáculo tem didática sem perder a poesia. A história de Exu, o que come primeiro, também ganha protagonismo, o que nos permite visitar questões religiosas que muitos carregam desde a infância. OlorumAyé não esconde e nem suaviza a espiritualidade iorubá. A apresentação rompe o olhar colonizado que insiste em separar cultura, religião, história e corpo, algo que não existe dentro da cosmologia iorubá.
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A cada sessão, o público reage com memórias e descobertas. Alguns reconhecem suas histórias, outros percebem pela primeira vez que há mais de uma forma de existir no mundo. Essa troca de saberes dá força à peça. A arte que o Grupo Oriki constrói é uma ferramenta de formação e de enfrentamento ao racismo estrutural, afirmando a importância de manter viva a cultura iorubá.
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OlorumAyé é um dos espetáculos gratuitos mais significativos que circulam pela região campineira. Não só apresenta o surgimento do mundo pela cosmogonia iorubá, como também convida pessoas de diferentes classes sociais, idades, etnias e religiões a ocupar um espaço com conhecimento que todos devem ter acesso. A peça traz a possibilidade de nos reconhecermos dentro de nós mesmos. E todas as vezes que retornamos ao teatro para assistir, é possível sentir a sensação de finalmente estarmos em paz internamente.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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Leia matéria feita por Fauollah Souza: OlorumAyé conecta cultura e ancestralidade negra
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