Montanhistas que vieram da periferia tiveram suas vidas transformadas pelo esporte
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Por Bruna Azevedo
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Durante a pandemia, a montanhista e ativista, Aretha Duarte, resolveu escalar o Everest. O desafio que parecia impossível para uma mulher preta da periferia de Campinas (SP) se tornou realidade em 2021. Segundo Aretha, a busca por recursos financeiros foi realizada dentro de um ano, a partir de rifas, eventos sociais, e principalmente, pela venda de materiais recicláveis, o que gerou cerca de R$ 500 mil.
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“Eu já tinha experiência física, técnica e emocional por conta da minha profissão como guia. Só faltava o recurso financeiro. Eu também tinha em mente que poderia não voltar viva, e precisava do dinheiro para qualquer tipo de urgência. Não queria dar prejuízo aos meus pais”, explica a montanhista.
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A atleta conta que a reciclagem de materiais fez parte de sua infância, época em que vendia latas e sucatas para comprar brinquedos que seus pais não podiam pagar. “Eu me lembro que uma vez eu quis ter uns patins, aquele brinquedo que era lançamento na ocasião. Meus pais não podiam comprar. E ao invés de ficar reclamando, eu fui lá e vendi recicláveis para poder comprar. Sempre fui muito empreendedora. Na infância eu vendia chocolates, chicletes e pirulitos”, diz.
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Assim como Aretha, a estudante de serviço social, Katia Ágata, também veio de uma realidade distante do mundo da escalada. Mas, diferentemente da campineira, que conheceu o esporte através da universidade, Kátia teve seu primeiro contato com a atividade física por meio de um projeto social na comunidade Turano, no Rio de Janeiro, onde vive até hoje.
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Para Kátia, a escalada serviu como um impulso em sua vida e autoestima durante a adolescência. “Eu não fazia ideia do que era a escalada e acabei me apaixonando. Se tornou uma coisa muito grande na minha vida. Na escalada a gente trabalha as nossas frustrações, como nos sentimos e a resiliência”, conta.
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O próximo Everest
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Aretha destaca os desafios existentes em torno da escalada, esporte caro e de difícil acesso para grupos marginalizados. Por isso, em 2023, a educadora física implementou a primeira parede de escalada gratuita no Parque Linear José Mingone, em Campinas, com apoio do Secretário de Esportes e Lazer, Fernando Vanin. A escolha do local, que segundo Aretha atende mais de 20 bairros da região periférica da cidade, foi pensada para atingir a maior quantidade possível de pessoas.
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“Meu próximo grande Everest vai ser implementar paredes de escalada em periferias de todo o Brasil. Eu sei que esse vai ser o meu maior desafio”, considera Aretha Duarte.
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Por outro lado, o Secretário Vanin defende que a maior dificuldade para implementar mais espaços de lazer gratuitos em áreas periféricas está no orçamento e a dificuldade da prefeitura em manter a estrutura do local. De acordo com ele, a Secretaria de Esportes e Lazer corresponde a 0,40% do orçamento da prefeitura. “Uma praça de esporte tem que ter um professor, tem que ter alguém dando instruções, material esportivo para a pessoa poder dar aula e ensinar a pedagogia do esporte. Então, como eu não tenho perspectiva de ter professores, não tenho por que fazer planejamento de áreas para isso”, explica.
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No entanto, a montanhista Kátia afirma que a simples existência de espaços que incentivem a cultura e o esporte na vida das periferias, pode mudar completamente o rumo de uma história. Kátia reitera que fornecer lazer e qualidade de vida aos jovens da comunidade não deveria ser um papel exclusivo de projetos sociais. “Quando você está nesse contexto de comunidade, vendo operações policiais acontecendo, entre outras coisas, você acaba jogando os seus sonhos fora. Então, a escalada veio nesse sentido para minha vida. Agora, eu posso sonhar, posso querer outras coisas e acessar outros lugares”, desabafa Kátia.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

