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ENTREVISTA – Inspirado nos baús de entregadores Fernando Pires adaptou sua moto e passou a prestar socorro na região
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Atuação de Fernando Pires chamou a atenção da imprensa e inspirou modelos oficiais de resgate
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Por Ana Carolina Cassanti e Lívia Dentini
Imagens: Lívia Dentini
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Voluntário desde os anos 1980, Fernando Pires é o criador da Moto Resgate, iniciativa que nasceu da urgência de atender pacientes acamados e vítimas de acidentes em Campinas. Depois de anos se deslocando a pé, de carona ou até de carroça, ele percebeu que precisava de autonomia e transformou uma moto usada em unidade de primeiros socorros.
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Inspirado nos baús de entregadores, adaptou equipamentos, criou proteção para cilindros de oxigênio e passou a prestar suporte básico em ocorrências da região. Sua atuação chamou a atenção da imprensa e inspirou, ainda que sem crédito, modelos oficiais como as MOBs e motolâncias adotadas pelo Corpo de Bombeiros e pelo SAMU. Nesta entrevista, Pires revisita sua trajetória, fala sobre as dificuldades de ser voluntário e relembra como sua iniciativa ajudou a moldar o atendimento pré-hospitalar sobre duas rodas.
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Como começou essa história de transformar sua moto em uma “motolância”?
Começou lá atrás, em 1986, quando eu fazia trabalho voluntário atendendo pessoas acamadas ou sem condições de ir a um posto de saúde. Eu ia até elas do jeito que dava. Às vezes eu ia a pé, às vezes pegava uma carona com alguém, às vezes até de carroça. Dependia sempre de alguém me levar até o paciente.
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Em que momento o número de atendimentos começou a aumentar?
Depois do primeiro resgate bem-sucedido, as pessoas ficaram sabendo e assim foram me conhecendo e indicando. Eu tratava com cuidado os que estavam acamados, curava feridas, fazia o que podia. E como fui ajudando bastante gente, comecei a ter mais chamadas. Quando percebi que não dava mais para depender dos outros. Eu precisava ir e vir por conta própria para conseguir atender todo mundo.
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Como você conseguiu sua primeira moto?
Eu estava morando num apartamento que comprei pela Construtora Casa Camp. Era uma entrada pequena e várias prestações, mas não consegui pagar. Alguns meses ficaram para trás. Aí apareceu um comerciante que assumiu as prestações e me deu uma moto em troca. Era uma moto usada, mas boa. E aí eu pensei em transformá-la no meu meio de trabalho. A ideia veio dos entregadores de pizza. Eles usam baú para carregar caixas e entregas. Eu pensei: “Se dá para usar baú para pizza, dá para usar para materiais de atendimento”. Então adaptei um baú e aprimorei, inventando um sistema de encaixe rápido.
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Por que você começou a equipar a moto com itens de resgate e não apenas atendimento?
Porque, no caminho para atender as pessoas, eu me deparava com muitos acidentes de trânsito. E eu chegava de mãos vazias. Via gente caída, precisando de ajuda, e eu sem nada. Então decidi que precisava ter meus próprios recursos para prestar o suporte básico. Coloquei um extintor P4, um pé de cabra, uma corda, um alicate corta-fio, um suporte para colocar o cilindro de oxigênio, que chamo de “armadura”, além de sirene, sinais, adesivos refletivos. Fui melhorando aos poucos e a moto foi ficando equipada.
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“A ideia veio dos entregadores de pizza. Eles usam baú para carregar caixas e entregas“
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Você falou sobre o cilindro de oxigênio. Como criou essa proteção em uma moto?
Eu usei uma mola de carro, daquelas bem resistentes, e adaptei para abraçar o cilindro. A mola envolvia o cilindro embaixo e por cima, com reforço para não quebrar em caso de queda. Assim eu podia carregar oxigênio sem risco.
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O que tinha dentro do baú?
Uma mochila de emergência completa: Reanimador Pulmonar Manual (Ambu), kit de laringoscópio (que eu não usava, mas levava para algum médico se estivesse presente), cânulas, ataduras, soro, equipo, materiais de primeiros socorros, tudo conforme eu podia adquirir.
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Você administrava medicamentos nesses resgates?
Não. Eu só fazia acesso venoso. Não administrava nada. Apenas deixava pronto o acesso para quando o médico ou a equipe chegasse. Prestava suporte básico até a chegada do resgate. Fazer estabilização inicial, controlar hemorragias, imobilizar, ventilar se fosse preciso, abrir vias aéreas. Eu ajudava até chegar uma unidade de socorro.
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Como você sabia que um acidente tinha acontecido?
Pelo PX. Eu deixava o PX ligado no canal 9, que era emergência. A Rede de Emergência de Campinas funcionava redondinho. Quando alguém informava acidente no canal 9, era repassado para o grupo de voluntários da Cliza, chefiada pelo Capitão Sadraque. Ele tinha cadastro de vários voluntários e distribuía os chamados. Eu ouvia tudo e, quando a ocorrência era próxima, eu mesmo ia ajudar.
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Você comentou que levou a ideia para São Paulo. Como isso aconteceu?
Então… naquela época, quando o oficial do bombeiro pediu para olhar, ele analisou a moto, viu o que eu estava fazendo, memorizou tudo, me parabenizou e sumiu. Depois, ele levou essa ideia para São Paulo, onde o governador era o Alckmin. Lá foi aprovado, mas ele colocou como se a ideia tivesse sido deles, do bombeiro, mas na verdade copiaram de mim na cara dura. Aí implantaram as MOB, as motos de salvamento do bombeiro, no estado de São Paulo. Hoje ele é usado na cidade de São Paulo e em algumas cidades. Aqui em Campinas também teve MOB, e outras cidades também implantaram.
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Existe um critério para utilizar esse tipo de serviço?
Sim. Funciona como viaturas de suporte avançado, UTI móvel e suporte básico. Você precisa de uma quantidade X de habitantes para justificar cada tipo de unidade. Por exemplo, para UTI, precisa de tantos habitantes para justificar uma, duas, três unidades. Para o suporte básico é a mesma coisa. E para as motos de resgate também.
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Recebeu algum reconhecimento por isso?
Só depois de bastante tempo. O pessoal começava a perguntar quem era aquele cara da motinha vermelha, sirene ligada, prestando atendimento nos acidentes. Isso provocou curiosidade nos jornais. Repórteres começaram a tentar me achar, mas como eu era voluntário e não tinha vínculo com ninguém, só me encontravam se fosse por coincidência, num flagrante de atendimento. Um repórter foi ao Hospital que eu frequentava, perguntou para um ascensorista de elevador, que também era telefonista, e ele disse: “Eu conheço, é o Pires”. Disse que eu era voluntário e que às vezes ia lá pedir material como gases e ataduras para os atendimentos. Além do reconhecimento por veículos editoriais, a criação de Fernando Pires rendeu orgulho e outros reconhecimentos. Ouça:
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Você conseguia material facilmente?
Nem sempre. Às vezes uma enfermeira ajudava, outras não. Eu ia em postos de saúde pedindo material para cuidar de feridas. Uma hora percebi que não poderia contar sempre com isso. Comecei a procurar ajuda em outros lugares. Aí encontrei a Hospitalar, uma distribuidora. Eles me perguntaram o que eu precisava, e eu disse: luvas, ataduras, esparadrapo, micropore, gaze, soro fisiológico… Eles me forneceram tudo, sem exigir assinatura ou nada. Sempre me deram o que eu precisava. Ma o oxigênio eu tirava do bolso. No acidente, você precisa do cilindro para manter a oxigenação do paciente. Então eu comprava o gás e abastecia sozinho. Conheci a Campgás Service, no Jardim do Trevo. Sensacional, moram no meu coração. Perguntaram o que eu precisava e eu disse que era oxigênio e manutenção do regulador, porque vibrava muito na moto. Eles me forneceram equipamento adequado, fizeram manutenção do cilindro sem cobrar nada e disseram que o oxigênio que eu precisasse era só passar lá que ele carregava.
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Se você pudesse descrever a sua trajetória com a Moto Resgate em uma palavra, qual seria?
Uma loucura.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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