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 ‘Vícios & Vinhos’ traz um gole de arte e caos

OPINIÃO – Com produção refinada de Gomesz e letras de Viniseven, o EP transforma o caos urbano em um brinde à vulnerabilidade

Por Pedro Rabetti

O EP Vícios & Vinhos chega como quem brinda ao caos. Seis faixas, dezesseis minutos e um universo inteiro de sensações condensadas em versos que sangram, beats que respiram e produções que soam como lembranças fragmentadas. É urbano, é denso, é honesto, e, acima de tudo, é muito bem-feito. Antes mesmo de apertar o play, eu já sabia o que esperar. O nome Gomesz nos créditos bastava. Eu o conheci no meu primeiro ano de faculdade e mesmo naquela época, o talento dele para música, voz, e produção já era evidente. Não era sobre fazer barulho; era sobre construir espaço sonoro, algo que ele faz aqui com maestria. A produção do projeto é limpa e viva, com camadas que conversam entre si como fumaça e vento.

 

Capa do álbum: Maria Eduarda Matoso

Saturno abre o EP, e o golpe é certeiro. A faixa começa com ecos de cidade grande, buzinas e o saxofone de um jazz que parece tocar em um beco depois da chuva. Aos poucos, a batida cresce e o verso entra: “É seis e meia da matina e eu já tô de pé”. É o retrato cru de quem sobrevive à rotina, ao tempo, à gravidade, e não é à toa que o título evoca o planeta do peso, dos ciclos, do amadurecimento. A forma como Gomesz equilibra o instrumental é brilhante: há respiro, há silêncio, há cidade. E há dor. Saturno é dessas faixas que não passam, orbitam. É o coração do EP, e o melhor cartão de visitas que ViniSeven, compositor das seis faixas, poderia ter oferecido.

Gomesz, por sua vez, imprime sua assinatura sonora em cada batida. Sua produção não sufoca as letras, mas as envolve, criando um contraste entre o pulso eletrônico e a respiração humana. Há delicadeza no tratamento do som, uma sutileza rara no rap contemporâneo. Tudo é muito bem equilibrado, os graves não dominam, os agudos não se perdem, e o silêncio é usado como parte da composição. É essa maturidade técnica que faz Vícios & Vinhos soar grande, mesmo sendo um EP conciso.

Há algo de sofisticado e visceral no modo como o EP é construído. Tudo soa pensado, mas nada soa artificial. É como se os campineiros tivessem encontrado o ponto exato entre o vício e a vertigem, entre o gole e o grito. A estética do trabalho não é apenas sonora, mas cinematográfica: a gente quase enxerga o neon refletindo nas garrafas e as taças vibrando com o baixo.

O projeto é uma narrativa sobre vulnerabilidade. Entre versos e vinhos, ViniSeven revela o desconforto de quem se expõe, mas também o poder de quem se permite sentir. É uma obra que entende que arte não é esconder o erro, e sim transformar o erro em gesto. Cada faixa é uma tentativa de se reerguer, de encontrar beleza no caos.

 Vícios & Vinhos se firma como um registro elegante e necessário, uma prova de que a nova geração do rap independente brasileiro não apenas domina a técnica, mas também a sensibilidade. ViniSevendemonstra talento raro na composição: suas letras são intensas, cheias de imagens e metáforas que equilibram dor e desejo com naturalidade, sem parecer esforço. Cada verso tem intenção, peso e melodia própria. Gomesz, por sua vez, transforma essas palavras em matéria sonora, lapidando-as com precisão e afeto. Juntos, eles provam que quando produção e poesia caminham lado a lado, o resultado ultrapassa o som, vira experiência. O projeto é mais do que um EP: é um brinde sincero à arte que nasce do caos e se refina no coração.

FICHA TÉCNICA
Obra:
EP ‘Vícios & Vinhos’
Artista:
Vinicius Soares (ViniSeven)
Produção artística/produção:
Gomesz
Onde ouvir:
Spotify
Foto da capa: Maria Eduarda Matoso

Orientação e edição: Adauto Molck

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