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OPINIÃO – Com produção refinada de Gomesz e letras de Viniseven, o EP transforma o caos urbano em um brinde à vulnerabilidade
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Por Pedro Rabetti
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O EP Vícios & Vinhos chega como quem brinda ao caos. Seis faixas, dezesseis minutos e um universo inteiro de sensações condensadas em versos que sangram, beats que respiram e produções que soam como lembranças fragmentadas. É urbano, é denso, é honesto, e, acima de tudo, é muito bem-feito. Antes mesmo de apertar o play, eu já sabia o que esperar. O nome Gomesz nos créditos bastava. Eu o conheci no meu primeiro ano de faculdade e mesmo naquela época, o talento dele para música, voz, e produção já era evidente. Não era sobre fazer barulho; era sobre construir espaço sonoro, algo que ele faz aqui com maestria. A produção do projeto é limpa e viva, com camadas que conversam entre si como fumaça e vento.
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Saturno abre o EP, e o golpe é certeiro. A faixa começa com ecos de cidade grande, buzinas e o saxofone de um jazz que parece tocar em um beco depois da chuva. Aos poucos, a batida cresce e o verso entra: “É seis e meia da matina e eu já tô de pé”. É o retrato cru de quem sobrevive à rotina, ao tempo, à gravidade, e não é à toa que o título evoca o planeta do peso, dos ciclos, do amadurecimento. A forma como Gomesz equilibra o instrumental é brilhante: há respiro, há silêncio, há cidade. E há dor. Saturno é dessas faixas que não passam, orbitam. É o coração do EP, e o melhor cartão de visitas que ViniSeven, compositor das seis faixas, poderia ter oferecido.
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Gomesz, por sua vez, imprime sua assinatura sonora em cada batida. Sua produção não sufoca as letras, mas as envolve, criando um contraste entre o pulso eletrônico e a respiração humana. Há delicadeza no tratamento do som, uma sutileza rara no rap contemporâneo. Tudo é muito bem equilibrado, os graves não dominam, os agudos não se perdem, e o silêncio é usado como parte da composição. É essa maturidade técnica que faz Vícios & Vinhos soar grande, mesmo sendo um EP conciso.
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Há algo de sofisticado e visceral no modo como o EP é construído. Tudo soa pensado, mas nada soa artificial. É como se os campineiros tivessem encontrado o ponto exato entre o vício e a vertigem, entre o gole e o grito. A estética do trabalho não é apenas sonora, mas cinematográfica: a gente quase enxerga o neon refletindo nas garrafas e as taças vibrando com o baixo.
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O projeto é uma narrativa sobre vulnerabilidade. Entre versos e vinhos, ViniSeven revela o desconforto de quem se expõe, mas também o poder de quem se permite sentir. É uma obra que entende que arte não é esconder o erro, e sim transformar o erro em gesto. Cada faixa é uma tentativa de se reerguer, de encontrar beleza no caos.
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Vícios & Vinhos se firma como um registro elegante e necessário, uma prova de que a nova geração do rap independente brasileiro não apenas domina a técnica, mas também a sensibilidade. ViniSevendemonstra talento raro na composição: suas letras são intensas, cheias de imagens e metáforas que equilibram dor e desejo com naturalidade, sem parecer esforço. Cada verso tem intenção, peso e melodia própria. Gomesz, por sua vez, transforma essas palavras em matéria sonora, lapidando-as com precisão e afeto. Juntos, eles provam que quando produção e poesia caminham lado a lado, o resultado ultrapassa o som, vira experiência. O projeto é mais do que um EP: é um brinde sincero à arte que nasce do caos e se refina no coração.
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FICHA TÉCNICA
Obra: EP ‘Vícios & Vinhos’
Artista: Vinicius Soares (ViniSeven)
Produção artística/produção: Gomesz
Onde ouvir: Spotify
Foto da capa: Maria Eduarda Matoso
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Orientação e edição: Adauto Molck
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