Fazer exercícios físicos sem acompanhamento pode causar lesões e problemas cardiológicos, dizem especialistas
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Por Murilo Sacardi e Enzo Zaros
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A rotina de exercícios se torna cada vez mais frequente na vida dos brasileiros. 42% deles incorporaram a atividade física em suas rotinas nos últimos 12 meses, segundo pesquisa da Brain Inteligência Estratégica. Isso significa que ainda existem 58% de sedentários que enfrentam diversos obstáculos que impedem de se tornarem ativos.
Muitos dos que iniciam a rotina de exercícios físicos não levam em consideração a contratação de um profissional de educação física ou uma avaliação médica, mesmo que básica. Isso pode acarretar lesões inesperadas e, até mesmo, situações mais graves como paradas cardíacas.
Geni Rodrigues de Azevedo, 53, iniciou no crossfit sem orientação adequada e se lesionou ao fazer a atividade. “Eu já fazia o crossfit há alguns dias, então fui fazer um exercício que preciso ficar pendurada numa barra e puxo meu corpo para cima. Em uma dessas ‘puxadas’, deu uma fisgada nas minhas costas, desde o pescoço até embaixo. Fiquei lesionada e um tempo sem fazer exercício, porque tive que tomar anti-inflamatório”, diz.

Para Luiz Fernando Lukas, profissional de Educação Física, a falta de orientação profissional pode gerar lesões significativas, seja em atividades com aparelhos, como a musculação, ou até mesmo em esportes como a corrida de rua ou o ciclismo. “O risco de fazer exercício sem orientação é a execução errada dos movimentos, coluna torta, joelho em posição inadequada, entre outros. Isso aumenta muito o risco de lesão”, explica.
No caso da musculação, há alguns perigos como a escolha de cargas inadequadas e o treino desequilibrado. “Quem chegou na academia agora tende a fazer mais repetições do que ele aguenta e escolher cargas inadequadas, tanto para mais, quanto para menos. Isso tudo pode causar distensão, tendinite e sobrecarga articular, por exemplo. Um outro problema é treinar só aquilo que gosta, o que acaba desequilibrando a atividade, como quem só treina braços e esquece as pernas”, diz.
Matheus Marran, 20, começou a treinar há pouco tempo e não teve orientação personalizada para iniciar na musculação. “Eu senti dor na execução dos movimentos no começo. Passei a chamar os profissionais da própria academia, que me explicaram as execuções, e procurei não errar mais”, conta.
Além dos iniciantes, existem os chamados atletas de “final de semana”, os que concentram toda a atividade física no sábado e no domingo, como por exemplo, a pelada ou o pedal com os amigos. Segundo o médico cardiologista Maurício Samuel Goldbaum, a avaliação cardiológica prévia é fundamental para verificar as condições cardiovasculares do momento e afastar possíveis causas que possam contraindicar uma atividade física mais rigorosa.
“Os problemas mais graves que podem ocorrer se relacionam ao aumento do trabalho cardíaco durante os esforços, o que pode desencadear complicações em pacientes com algum tipo de cardiopatia estrutural, como obstrução de artérias coronárias e arritmias cardíacas”, afirma o médico que atua com o serviço de ergometria desde 1988 e trabalha diretamente com o exame que avalia a resposta do coração e do sistema cardiovascular ao esforço físico controlado.
O médico diz que, feita a avaliação cardiológica, a segunda medida a ser tomada é fazer as atividades de acordo com o condicionamento físico do momento, aumentando a intensidade do exercício com o tempo. Ele destaca a hidratação como aliada, antes e durante as atividades e define os sintomas a serem observados. “Em caso de sintomas como tontura ao esforço e dor no peito, as atividades devem ser interrompidas até uma melhor avaliação”, alerta.
Lukas afirma que o acompanhamento de um profissional ajuda a evitar lesões. Segundo ele, o personal trainer planeja treinos específicos para cada aluno, analisando histórico familiar, de lesões, mobilidade ou até mesmo mais força em um dos lados do corpo.
O profissional de educação física também fala sobre os treinos da internet, que podem trazer armadilhas que aumentam o risco de lesão. “Infelizmente, internet é terra de ninguém. Nem sempre esses influenciadores são profissionais de educação física, mas sim pessoas que treinam há muito tempo. Por isso, às vezes, eles só replicam o que fazem ou seguem o que os internautas pedem, como caçadores de likes”, aponta.
Goldbaum alerta que mesmo para os jovens, que tem menor probabilidade de apresentar problemas durante as atividades, a avaliação física é recomendada. “É importante conscientizar as pessoas que o exercício físico feito com segurança e orientação desempenha papel fundamental na prevenção de doenças futuras, em várias áreas”, explica.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Murilo Sacardi

