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Evento no MIS ofereceu uma programação gratuita, marcada pela troca de experiências entre escritores, editoras e o público visitante
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Texto e imagens: João Praxedes
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A 2ª Mostra Literária de Campinas (MOLI) foi realizada no sábado, 8/11, como um ponto de resistência e diversidade, reafirmando a cidade como um território cultural que acolhe a produção independente. O evento foi sediado no Museu da Imagem e do Som de Campinas (MIS), oferecendo uma programação gratuita, marcada pela troca de experiências entre escritores, editoras e o público.
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O dia começou com a oficina “Dramaturgia Muralista”, conduzida por Ave Terrena. A atividade propôs uma imersão no processo criativo da peça Mural da Memória e utilizou referências do Muralismo Mexicano e de autores como Oswald de Andrade para inspirar a escrita de um “mural dramatúrgico” coletivo.
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O tom e a razão de ser da mostra foram dados por sua idealizadora, a escritora Gabriela Guinatti. Segundo ela, a mostra nasceu de uma necessidade evidente na região. “Eu percebi que Campinas não tinha nenhum movimento, nenhum espaço onde acolhesse as pessoas que fazem literatura, principalmente literatura independente,” explicou Gabriela, notando o paradoxo de uma cidade que já foi “casa da Hilda Hilst, foi casa do Guilherme de Almeida”.
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A proposta central do evento foi resgatar esse legado. “A minha ideia foi trazer Campinas para esse lugar de novo da literatura, mas da literatura livre, não condicionada às grandes editoras,” Gabriela frisou. Ela ainda resumiu a essência da feira como a “humanização do trabalho”, destacando que “o livro começa antes do livro estar impresso e termina depois que a pessoa lê e como aquilo modifica a vida dela e a visão dela de mundo.”
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Márcia Regina Rodrigues // A poeta Déa Canazz // Rebeca Navarro, poeta e escritora
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A Feira Literária reuniu autores e editoras independentes de diversos gêneros, desde livros juvenis e ficção científica até poesia e terror asiático. Em paralelo, a feira contou com o bar coordenado pelo Assentamento Marielle Vive, cujos membros, como Márcia Regina Rodrigues, aproveitaram a oportunidade para expor produtos artesanais. “É uma oportunidade pra gente também, né? Que, além de ser o lançamento do livro, a gente mostra os nossos produtos também”, disse Márcia, que vendia sabonetes, pomadas e diversos produtos artesanais orgânicos e veganos, resumindo a simbiose entre arte e comunidade como “o famoso ‘uma mão lava a outra'”.
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Na parte da tarde foi apresentada a mesa de debate “Bruxas, Escritoras e a Palavra Indomesticável”. O encontro se aprofundou na discussão sobre o livro “Neca: Romance em Bajubá”, da escritora Amara Moira, reforçando o compromisso da mostra com a diversidade de vozes e a literatura que desafia normas. A programação da noite culminou no Sarau “Um Canto para Hilda”, uma celebração poética em homenagem à escritora campineira Hilda Hilst, patrona desta edição.
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A chance de estar “cara a cara” com o leitor foi o ponto mais celebrado pelos expositores. A poeta Déa Canazza, que lançou Segredos de um Divã, um compilado de poesias que escreve desde os 11 anos, enfatizou a importância do contato pessoal. “Essa coisa de você ter o livro e a pessoa ali presente, contando um pouco de como foi feito o livro. Exatamente isso que você falou. Isso que dá vida, isso que é gostoso”, afirmou Déa, ressaltando que feiras como essa são onde se tem a chance de conhecer “escritas variadas, de tudo”. Ela ainda reforçou que Campinas, como uma cidade rica e literária, “merece realmente ter a cultura mais rica” e mais eventos desse tipo.
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A poeta e escritora Rebeca Navarro, que lançou seu livro independente Nosso Amigo Gaivota, concordou, contrastando a mostra com eventos de maior porte, como a Bienal do Livro: “Eu sou muito fã de espaços que oferecem essa oportunidade para artistas independentes,” disse Rebeca. “O público que vai [em grandes eventos] vai muito mais pra ir conhecer os famosos… Aqui a gente tem a oportunidade, a chance de estar de frente e cara a cara com as pessoas que estão realmente interessadas nisso e isso é impagável.”
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Rebeca também destacou a qualidade do que está sendo produzido fora do eixo tradicional: “Eu vejo a qualidade literária fenomenal, né? Fantástica. Às vezes eu leio clássicos que… isso não chega nem aos pés daquele independente que eu acabei de ler.” O evento deixou claro que a literatura de Campinas e região está viva, diversa e pronta para ocupar o lugar que lhe é devido no cenário cultural brasileiro.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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