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Jamaicano movimenta cena de Dancehall em Campinas

Encontro está em sua sexta edição e todos os anos busca somar e unir pessoas de todas as partes do Brasil para dançar

 

Hyorrana Lopes, idealizadora do evento e o jamaicano Rollx // Alauriê Porfírio foi uma das juradas

Texto e imagens: Isabela Meletti


Um pedacinho da cultura da Jamaica desembarcou em Campinas neste sábado dia 1/11 e domingo dia 2/11. O Pon Di Spot, que celebra o Dancehall, estilo de dança jamaicano, reuniu dançarinos e estudiosos da dança de várias regiões do Brasil em um estúdio de dança de Barão Geraldo. Foram apresentações, aulas, show cases e batalhas 1×1. Uma das apresentações mais esperadas pelo público e grupos de dança foi a do dançarino jamaicano Rollx, que movimentou o público com passos e coreografias ensinadas para quem quisesse participar.

 

Em sua primeira vez no Brasil, Rollx contou que se sentiu “muito feliz” em ver tantas pessoas perpetuando a cultura do seu país. Para ele, é muito importante que esse tipo de evento aconteça porque é uma forma de “espalhar a palavra do Dancehall”. Ao fim da aula, Rollx fez um pedido aos dançarinos: “abracem o erro, porque é ele que faz vocês estarem aqui, errem e pratiquem, não tenham vergonha”.

 

Segundo a idealizadora do Pon Di Spot, a dançarina e mestranda em Artes da Cena na Unicamp, Hyorrana Lopes, o evento está em sua sexta edição e todos os anos busca somar e unir pessoas de todas as partes do Brasil que estudam e dançam o Dancehall. “Acho que dá para sentir nesse evento como é estar em coletivo, como podemos nos fortalecer, como podemos aprender um com o outro, ensinar um para o outro. O Pon Di Spot é um lugar de fortalecer, incentivar o coletivo diante dessa sociedade tão individualista em que vivemos”, afirmou Hyorrana.

 

Hyorrana explica que, por ser uma dança que surgiu no meio periférico e dançada por pessoas mais marginalizadas, o estilo enfrenta alguns olhares tortos, mais até do que outros gêneros que também nasceram na periferia, como o hip hop, que surgiu nos Estados Unidos.  Justamente por ser uma potência econômica, culturas dos EUA acabam tendo mais força de penetração e aceitação na sociedade – tornando-se hegemônicas – do que o Dancehall que surgiu numa pequena ilha da América Central, de acordo com a dançarina. Ouça…

 

O Dancehall, como gênero de música e dança, surgiu no final da década de 1970 na Jamaica, influenciado pelo reggae, porém com sonoridades mais dançantes e uso de batidas eletrônicas e digitais. Com seu estilo de dança próprio, utiliza passos enérgicos inspirados nas batidas da música e possui crews: grupos de estudiosos do Dancehall que criam passos e coreografias para o estilo. Além disso, o gênero é marcado por forte influência da moda e propaga a coletividade como um dos principais valores.

 

“A estética do estilo carrega as formas e a corporeidade de um povo que é subjugado, que sofre com o racismo e que dentro de uma sociedade capitalista, colonial e patriarcal acaba não sendo tão valorizada. Eu acho que isso tem a ver com os saberes que são mais valorizados e os que não são”, disse Hyorrana.

 

A dançarina, professora e coreógrafa Alauriê Porfírio, de 27 anos, viu o Pon Di Spot nascer e acredita que a presença de um dançarino jamaicano vem para selar o compromisso no Brasil e em Campinas. “Eu comecei no hip-hop e eu fui me aproximando cada vez mais do Dancehall e virou uma paixão que eu não esperava na verdade, é uma mistura, porque o ele é muito desafiador, é uma dança muito complexa, ela exige muito, mas ela também me move muito”.

 

A dançarina Sara Bersi foi a ganhadora da batalha e recebeu o primeiro lugar das mãos de Rollx

BATALHAS

Ponto alto do evento, as batalhas de dança que, neste ano, aconteceram nos níveis iniciante e avançado, além de uma exclusivamente de mulheres. Nesse tipo de competição, os duelos acontecem um a um e quem passa das disputas classificatórias duela até chegar às finais, que elegem um vencedor. As batalhas foram julgadas por professores e coreógrafos.

A dançarina Sara Bersi venceu a batalha avançado do Pon Di Spot 2025. Ela conta que demorou para se sentir confortável em dançar o gênero porque considerava a modalidade difícil. “Hoje em dia é uma das minhas modalidades favoritas e eu estou muito feliz de ter ganhado a minha primeira batalha de dança. Eu acho que é como um uma prova de que eu devo acreditar mais em mim, para eu entender que estou no caminho certo”, declarou emocionada.

 

A batalha que Sara venceu foi julgada e avaliada por Rollx. A dançarina passou das classificatórias e chegou aos duelos finais batalhando contra outros sete artistas. Ela afirmou, em êxtase, estar “muito grata e contente por ter sido escolhida como ganhadora da batalha por Rollx”, dançarino referência da modalidade na Jamaica. Após os duelos, o jamaicano reforçou “isso aqui, as batalhas, não são sobre quem é melhor ou pior, são sobre evolução constante, prática e acreditar que sempre podemos ser melhores”.

 

A dançarina e estudante de Letras, Helena Paixão, de 21 anos, faz parte da “Slackness Crew” e participou de uma das batalhas. Segundo ela, foi a primeira vez que se envolveu em uma competição do tipo. Helena acredita que esse tipo de encontro é importante para dar visibilidade ao estilo e desmitificá-lo como “sem prestígio”. “Eu aprecio muito essa cultura e isso me motiva muito a aprendê-la. Uma cultura que valoriza o corpo, que vê o corpo mais como um espaço de liberdade do que de pecado. É também uma cultura que se constrói muito no coletivo, na rua, nas batalhas, por isso fiquei tão feliz de participar de uma. O Dancehall é isso, a celebração e o uso da dança como espaço de denúncia, de luta através do corpo diante de uma sociedade tão desigual e tão violenta que a Jamaica vive e que a gente aqui no Brasil vive também”, argumentou a estudante.

 

De acordo com Hyorrana, o Pon Di Spot, que começou pequeno e atualmente atrai pessoas de todo o Brasil, deve, nas próximas edições, crescer ainda mais e inserir novidades e mais batalhas na programação.

Rollx, coreógrafo e dançarino de Dancehall, junto com o público da sexta edição do Pon Di Spot

Orientação e edição: Adauto Molck

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