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Campineira se especializou em arte nas unhas

ENTREVISTA Marília Godoy explica como a evolução das técnicas transformaram a estética e o comportamento das clientes

 

Por Noemi Freitas

Nos últimos anos, a nail art e as unhas de gel deixaram de ocupar um papel secundário na estética e passaram a definir identidade, estilo e personalidade. O que antes era visto como um detalhe cosmético se transformou em um fenômeno cultural impulsionado principalmente pelas redes sociais. Plataformas como Instagram, TikTok e Pinterest criaram uma vitrine global de tendências, onde designs viralizam, profissionais se destacam e clientes chegam aos salões com referências cada vez mais específicas e personalizadas. Esse movimento acelerou o crescimento da área e ampliou a criatividade das profissionais, que passaram a ousar mais em cores, texturas, formatos e técnicas.

Marília Gomes Leite de Godoy, 27, nail designer de Campinas (Foto: Noemi Freitas)

Paralelamente, a evolução dos materiais — com géis mais resistentes, pigmentos sofisticados, efeitos cromados e aplicações 3D — tornou possível executar designs complexos com durabilidade e acabamento impecável. Hoje, convivem unhas minimalistas, translúcidas e delicadas com produções maximalistas, longas, metalizadas ou com elementos artísticos. Essa diversidade consolidou a nail art como expressão contemporânea de moda e autocuidado, e abriu espaço para profissionais como Marília Gomes Leite de Godoy se destacarem ao unir técnica, sensibilidade estética e originalidade em cada criação.

 

Marília tem 27 anos e nasceu em Campinas. Ela é uma nail designer que se destaca pela combinação entre técnica, autenticidade estética e profundo cuidado com cada cliente. Sua trajetória se insere em um momento decisivo da história da arte feita nas unhas. Com domínio de técnicas contemporâneas, sensibilidade artística apurada e atenção às tendências globais, Marília faz parte de uma geração de profissionais que elevaram a manicure ao patamar de arte e de construção visual. Seu trabalho carrega influências das estéticas internacionais, da cultura pop e da expansão das redes sociais, ao mesmo tempo em que se enraíza na experiência cotidiana com suas clientes campineiras, que encontram nela mais que uma profissional, mas uma parceira estética. Acompanhe a entrevista com ela:

 

Como começou sua relação com o universo das unhas e quando decidiu seguir carreira como nail designer?

Comecei quando vi uma amiga que tinha saído do emprego no shopping e estava indo super bem como nail designer. Aquilo me chamou atenção, porque eu sempre gostei muito de fazer unha e de arte em geral. Quando marquei uma unha com ela, comecei a pensar mais seriamente sobre isso e imaginei que talvez fosse uma área na qual eu também poderia me dar bem, já que unir estética com trabalho manual sempre me atraiu.

Quais foram os principais desafios dos primeiros atendimentos e como você evoluiu desde então?

O começo foi bem mais difícil do que eu imaginava. Na primeira tentativa, achei — bem prepotentemente — que iria me dar super bem logo de cara, mas percebi rapidinho que não era assim. Os kits iniciantes têm materiais de baixa qualidade, e na prática a técnica exige muito mais habilidade. Além disso, eu achei que conquistaria clientes muito rápido, mas foi o contrário: demorei para ter uma base. Isso quase me fez desistir, mas, como eu realmente gostava da área, continuei insistindo — e deu certo com o tempo  .

 

O que mais te encanta no trabalho com nail art e no cuidado com as unhas das clientes?

A arte e o trabalho manual. Eu amo criar algo, ver aquilo ganhar forma e me satisfazer com o resultado. Mas, além disso, tem um lado humano muito forte: estou sempre frente a frente com alguém por horas, conversando, criando vínculo. Conhecer tantas pessoas, ouvir histórias e participar da autoestima delas é extremamente gratificante. Isso, pra mim, faz tudo valer a pena.

 

De que forma seu estilo pessoal influencia seus designs e sua estética profissional?

Com certeza. Eu acredito que unhas decoradas já dizem muito sobre estilo, sobre gosto, sobre personalidade. Existem muitos estilos dentro da unha decorada, mas sempre há elementos que acabam refletindo a minha identidade artística, mesmo quando o design é mais maximalista ou mais básico. De alguma forma, meu toque sempre aparece ali.

Como funciona seu processo criativo — você parte da cliente, das tendências ou da sua própria identidade artística?

É um grande mix. Eu junto referências de tendências, ideias que a própria cliente traz, o que estudo, o que observo, e faço uma análise do estilo pessoal de quem está na minha frente. No final, tudo isso se mistura até chegar em um design que faça sentido para a cliente e que também converse com a estética que sei trabalhar melhor 

 

Quais são suas maiores referências e inspirações na hora de criar designs novos?

Minhas inspirações vêm principalmente de outras artistas. Acompanho muitos perfis brasileiros, mas também vejo muita coisa de fora — especialmente da Ásia e da Rússia, que são regiões que produzem nail art muito rica e criativa. Esses lugares influenciam bastante meu olhar e minhas referências diárias.

Qual é a melhor parte do seu trabalho — e o que te diferencia?

A melhor parte é poder criar algo bonito e ver a reação das pessoas. Quando alguém olha a unha pronta e sente satisfação, isso não tem preço. E acredito que meu diferencial esteja justamente nos designs que faço: na forma como combino elementos, nas escolhas estéticas e no toque pessoal que consigo colocar ali. Cada trabalho leva um pouco da minha “cara”. Gosto de várias técnicas, mas a que mais me representa é a pintura à mão livre. É onde realmente sinto que posso desenhar, usar o pincel, criar formas — e isso me dá muita satisfação. A parte da construção da unha também é legal, mas não é o que mais me brilha os olhos como a pintura artística.

Aplicações de pedrarias em camadas, brilho intenso e acabamento em gel (Fotos: Arquivo Pessoal)

 

Como você se mantém atualizada com as tendências, materiais e novidades do setor?

Principalmente pelas redes sociais. Instagram, TikTok e Pinterest fazem parte da minha rotina de pesquisa. Vejo muita tendência, consumo muita referência e estou sempre em contato com outras profissionais — e essa troca é muito rica. Aprendo muito mais com outras nail designers do que qualquer outra coisa.

Marília fala dos cuidados com higiene e segurança na sua rotina de atendimento. Ouça:

 

Quais foram os maiores desafios da sua trajetória profissional?

Sem dúvida, o início. A falta de clientes, a pouca experiência, não saber como divulgar o trabalho, não dominar a durabilidade das unhas, não conhecer os melhores materiais. Tudo isso foi frustrante por bastante tempo. Mas, com prática e estudo, tudo começou a melhorar 

 

O que te motiva a continuar trabalhando mesmo nos dias difíceis?

O amor pelo que faço e o resultado. Quando termino uma unha e vejo que ficou bonita, isso me motiva. E também o compromisso diário, porque esse é meu trabalho principal, minha renda. Então, mesmo desanimada, preciso estar ali — e acabo sempre encontrando satisfação no processo 

Como você lida quando uma cliente pede algo que foge completamente do seu estilo?

Eu tento orientar, sugerir, ajustar para que fique dentro do estilo dela, mas com harmonia. Nem todas as clientes têm o meu gosto, e tudo bem. Também consigo ver beleza em outras estéticas. No fim, se a pessoa quer muito algo, eu faço o melhor possível, mesmo que não seja algo que eu faria pra mim. O importante é que ela ame o resultado final 

Marília diz o que considera sua marca registrada. Ouça:

Qual atendimento ou cliente mais marcou sua trajetória e por quê?

Foi o de uma cliente com mais de 60 anos. Ela fez alongamento e escolheu um design bem diferente. Quando viu as unhas longas e decoradas prontas, ela se emocionou e chorou. Era algo que queria há muito tempo, mas só agora conseguiu se priorizar. Fazer parte desse momento foi muito especial para mim. 

Como você concilia sua rotina profissional com seus estudos ou outros projetos de vida?

É bem difícil e corrido. Preciso ter uma agenda muito regrada e acabo não conseguindo atender tantas pessoas por semana. Mas estou no último semestre, então logo vai ficar mais leve. Assim que me formar em Psicologia, quero migrar aos poucos para a área, mas ainda não sei se vou abandonar 100% as unhas. Talvez concilie as duas coisas por um tempo 

Marília fala sobre a precificação do seu trabalho — como ela define seus valores. Ouça:

Você se considera uma profissional atípica dentro do mercado da sua cidade?

Em contato com outras profissionais, às vezes não tenho essa percepção. Mas, olhando para a realidade da minha cidade e pelo que minhas clientes dizem, percebo que sim: que sou um pouco atípica. Aqui, quase não há quem trabalhe com nail art elaborada — a maioria faz gel tradicional, designs mais simples. Então, no fim das contas, acabo sendo uma profissional diferente dentro do mercado local, mesmo que isso não fique tão claro para mim.

 

Orientação e edição: Adauto Molck

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