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‘Slam Voz e Arte’ revela talentos e poetas

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 Evento é um espaço de expressão para MCs e artistas da palavra, que encontram o microfone aberto

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O Slam ressignifica a palavra falada como ferramenta de expressão, reunindo vozes diversas em performances que trazem poesia, contestação e identidade (Foto: Divulgação)

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Texto: Pamela Sousa & Isabela Reis
Imagens: Isabela Reis

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O cenário cultural de Campinas vem assistindo ao fortalecimento de um movimento que mistura arte, resistência e coletividade, o Slam Voz e Arte. Criado em janeiro de 2024, o evento se consolidou como um espaço de expressão para poetas, MCs e artistas da palavra, que encontram no microfone aberto e no julgamento do público uma forma de romper silenciamentos históricos.

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A iniciativa é organizada por Miguel Eusebio Araújo, conhecido artisticamente como Miguel Passará, de 23 anos. Ele relembra que a primeira edição aconteceu no Largo do Pará, no dia 25 de janeiro, e que nos meses seguintes o Slam percorreu Vila Padre Anchieta, Marisa, ATL 609 e, por um longo período, a Sala dos Toninhos. Desde março de 2025, as batalhas acontecem na Casa do Hip Hop de Campinas, sempre no último domingo do mês.

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O Sam nasceu como um projeto independente, pensado inicialmente como um “MVP cultural”, nas palavras de Miguel. A proposta era itinerária nos três primeiros meses para sentir como o público reagiria. Os campeonatos são organizados em volta de cinco pilares: poesia, performance, competição, interatividade e comunidade. As performances precisam ter entre três minutos e os poemas devem ser autorais.

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Miguel Passará leva ao palco a força de suas vivências // Punka Duarte  imprime intensidade e emoção

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As primeiras edições reuniram entre 20 e 30 pessoas, número que oscilou conforme a região. Quando o evento passou a ocupar a Sala dos Toninhos, tornou-se mais regular, chegando a 40 participantes em algumas noites. Já na Casa do Hip Hop, o público varia entre 10 e 20 pessoas, com picos eventuais que surpreendem a organização. Para Miguel, o Slam cumpre um papel político e afetivo. “É o espaço onde corpos marginalizados rompem com o silenciamento e colocam suas perspectivas no mundo, de forma sensível ou brutal, mas sempre verdadeira.”

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A poesia de Punka Duarte é uma narrativa emocionante sobre os custos afetivos e materiais de viver pela arte. A autora constrói imagens sensoriais: o cheiro do café, o sapato com poeira da cidade, o caderno amassado. Para desta forma mostrar o peso do deslocamento e da persistência criativa. O texto trabalha com nostalgia, sacrifício e esperança, revelando uma voz madura, que reconhece o sofrimento do caminho, mas não abre mão dele. O recurso autobiográfico se transforma em universal: qualquer artista que já deixou a própria casa para perseguir um sonho se reconhece na obra.

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Tia Marques mostra um texto urgente, político e visceral. A obra trata da vivência de uma pessoa LGBTQIAPN+ afeminada enfrentando o preconceito cotidiano, o apagamento e o medo. A narrativa combina ironia (“Nossa, tia, mas você é linda”), indignação e reflexão social, usando imagens fortes como “um muro de Berlim em cada esquina” para retratar a violência simbólica e física que corpos dissidentes enfrentam. É uma poesia que performa resistência e dignidade: “sigo sempre a minha existência, de salto e unha”, diz a autora, afirmando sua preservação estética como gesto político.

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Eliel Marcos apresenta a poesia mais performática do trio. Alterna humor, improviso aparente, crítica social e metáforas ágeis, como se estivesse dialogando diretamente com o público. A narrativa é construída como um fluxo de consciência, em que o poeta testa frases, se corrige, brinca com o próprio processo criativo e, de repente, entrega reflexões contundentes sobre masculinidade, pandemia, saúde mental e desigualdade.

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Tia Marques mescla crítica social e lirismo // Eliel Marcos traz versos que dialogam com ancestralidade

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A força do texto está na alternância entre o banal e o grave de “telemarketing oferecendo plano de operadora” ao trauma de 500 mil mortos num estilo que lembra o slam raiz, rápido, pulsante e crítico. O tom de Eliel é extremamente teatral e cativante ao público.

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CRESCENDO

O Slam Voz e Arte se consolida é uma disputa poética com notas dadas por cinco jurados, notas sempre entre 9 e 10, mas como um espaço de desenvolvimento e afirmação. Miguel lembra, por exemplo, da poeta trans que participou pela primeira vez visivelmente nervosa, voltou mais forte na edição seguinte e, pouco depois, venceu o Slam Diáspora. “É sobre conexões, sobre juntar pessoas para que enxerguem a potência uma da outra”, resume.

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Segundo o autor Paulo Eduardo Benites de Moraes, doutor em Letras pela UFMS, no Slam temos o eu periférico que é diferente do eu lírico, pois o eu periférico utiliza a sua voz como forma de denúncia como também de desejo de reparação.  O motivo do ser eu periférico não está ligada ao fato geográfico de pessoas que moram na periferia, mas também aqueles que são marginalizados pela literatura branca, padrão e acadêmica. “Enquanto o Slam seguir ocupando praças, salas culturais e a Casa do Hip Hop, Campinas continuará sendo palco de encontros que transformam poesia em resistência”, afirmou Moraes.

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Orientação e edição: Adauto Molck

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