ENTREVISTA – Para a jornalista Sofia Furtado referências do passado ganharam vida no consumo moderno
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Por João Fortunato e Pedro Rabetti
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Sofia Furtado é jornalista de moda em Campinas, São Paulo. Formada em Jornalismo pela PUC-Campinas, ela atua profissionalmente com produção de conteúdo e redação voltados ao universo fashion, combinando olhar criativo e atenção às tendências emergentes. Sofia trabalha na Z Magazine, onde pesquisa, escreve e analisa o modo como estética, cultura pop e consumo interagem no cenário nacional. Sua trajetória também inclui colaborações e conexões com agências de comunicação, o que amplia seu campo de atuação para além da produção editorial.
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Apaixonada pelas possibilidades que a moda oferece como expressão identitária, Sofia busca expandir seus aprendizados e atuação nesse segmento, sempre aliando estilo e significado. Pós-graduada em Fashion Business pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), ela acredita na moda como forma de representar valores, como autenticidade e inovação, e também como espaço de diálogo sobre história, estética e sociedade.
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Na entrevista abaixo ela fala de nostalgia dos anos 1990 e 2000, das novas gerações, das redes digitais, a ciclicidade da moda e da relação da moda com o escapismo.
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Sofia Furtado acredita que estilos de moda de épocas passadas continuarão influenciando a forma de nos vestirmos e nos expressarmos (Foto: João Fortunato)
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O que mais te chama atenção nesse movimento de resgate da moda dos anos 1990 e 2000?
Bom, para mim o que mais chama atenção não só na moda, mas é também na reinvenção da tecnologia, né? A gente tem visto a volta dos ‘flip phones’, teve até uma colab recente da Motorola com a Swarovski, que eles fizeram um telefone parecido com uns que tinham nos anos 2000, só que com essa pegada mais fashion. Então, tem toda essa questão de ter Swarovski, collabs com marcas da moda. O que mais me chama a atenção nesse movimento é como a tecnologia também está se adaptando a essa nostalgia e não só as roupas, sabe? Ah, e uma outra coisa também que eu esqueci… essa nostalgia vem também com um novo papo de sustentabilidade. Quando a gente fala sobre moda dos anos 2000, falamos de um momento diferente da moda e de mercado. E a gente vê que muitas marcas estão reproduzindo isso de forma parecida. A gente tem visto muito mais brechós, por exemplo, que seguem um pouco mais dessa moda nos 2000 e tem a sustentabilidade e todos esses quesitos relacionados a isso.
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Na sua visão, o que esse resgate revela sobre os desejos ou carências da geração atual?
A moda tem uma relação muito próxima com o escapismo. Durante períodos de crise, a moda sempre se intensifica e as tendências ficam mais luxuosas, não necessariamente mais caras, mas sim, mais estéticas. No momento, com tantas crises, financeiras, políticas, como as taxações do Trump, essa tendência funciona como um escapismo tanto para jovens quanto adultos. Estudos mostram isso… no salto alto, por exemplo, em períodos de crise econômica os saltos ficam mais altos; na Segunda Guerra, Churchill declarou o batom vermelho um item essencial. Na pandemia, também vimos isso: confortos caseiros, mas também novas estéticas surgindo nas redes sociais como forma de escapar da realidade.
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O aumento nas vendas de itens ligados a essa estética reflete apenas moda ou também consumo mais amplo como música, cinema e objetos?
É um consumo mais amplo sim, que principalmente quando a gente vê no sentido da tecnologia, eu vejo que isso vem bastante em alta na tecnologia, na forma como as pessoas estão consumindo a tecnologia atualmente. É, tanto que no ano passado teve a tendência do ‘dumb phone’, que a pessoa tinha um telefone que era o smartphone e um outro telefone que ela usava no dia a dia, que era mais só para ligação. Então, assim, eu acho que com relação à tecnologia e outras mídias também, a gente tem uma volta muito grande dos anos 2000 e anos 1990.
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Você acredita que essa volta é uma tendência passageira ou pode se consolidar como estilo duradouro?
A moda é cíclica. Essa tendência está em alta agora, mas logo será substituída por outra, talvez inspirada nos anos 70 ou 80. Já vemos, por exemplo, a volta da estampa de poá, a estampa de bolinha, muito característica dos anos 50. Apesar disso, a nostalgia mantém algumas peças vivas. Então, mesmo que o ciclo siga em frente, parte do público continua presa a essas referências.
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Por que a nostalgia dessa época tem tanto apelo para as novas gerações que nem viveram nesse período?
As novas gerações são responsáveis por renovarem tendências antigas, como o Y2K, por exemplo. O Y2K foi uma tendência que surgiu como uma renovação nos anos 1990 e 2000, que foi impulsionada principalmente pelos jovens. Adolescentes, principalmente a Geração Z, reconfiguram peças e estilos de forma diferente, calças de cintura baixa voltam, mas em versões mais largas ou como calças cargo, por exemplo. Já os millenials, que viveram essa época, costumam manter o estilo original. Muitos ainda têm peças guardadas e produzem conteúdos de forma saudosista.
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Há diferenças no modo como a nostalgia é consumida por adolescentes e por adultos que viveram de fato essa época?
Sim. Temos uma narrativa muito forte nos jovens de hoje que é a busca pela autenticidade e pertencimento, e a moda é um dos principais caminhos para isso. Essa tendência abriu até um nicho novo de influenciadores, tanto millenials resgatando peças vintage quanto adolescentes criando novas versões.
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Como as redes sociais e celebridades influenciam no resgate dessas tendências antigas?
Quando falamos sobre celebridades, e pessoas influenciadores no geral, falamos de uma figura que almejamos ser, uma figura de autoridade quando falamos sobre moda. Muitas delas, como Kim Kardashian e Beyoncé viveram os anos 90/2000 e ajudam a disseminar o estilo. Hoje, até marcas de luxo têm artistas como diretores criativos, como a SZA na Vans. E artistas atuais como Charli XCX usam uma identidade muito pautada nessa estética do final dos anos 90 e anos 2000, reforçando ainda mais o movimento. Às vezes nem é uma coisa da celebridade em si, mas da identidade dela como artista e isso ajuda muito a disseminar essas tendências hoje em dia.
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Que impacto nas redes sociais nos influenciadores para a popularização da estética Y2K?
Acredito que quando falamos sobre redes sociais, nós falamos desse conteúdo de nostalgia, e percebemos que eles têm ficado cada vez mais curtos e menos vocais. Mas essa nostalgia ajuda com que o público se conecte com aquele conteúdo. Atualmente, a moda está sendo muito resumida nas redes sociais, como look do dia, pessoas falando sobre semana de moda, mas sempre em menos de um minuto, é uma coisa muito rápida, e dificilmente as pessoas se conectam com esse conteúdo de prontidão. E essas tendências, eu acho que transformam as redes sociais, porque trazem esse apego emocional que não é tão fácil trazer, não é tão fácil se conectar com o público, e principalmente com relação à moda. Quando eu falei, por exemplo, modas mais antigas, é um público que não está acostumado a usar rede social, é um público mais velho, mas agora anos 1990, 2000, são as pessoas que movimentam as redes sociais. Então, ter essas tendências nas redes sociais é o que faz as redes sociais praticamente se tornarem um espaço de conforto, um espaço emocional para as pessoas.
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As pessoas estão voltando para esse estilo por estarem cansadas do novo e por se apegarem a uma época mais simples?
Sim. Isso eu não tenho dúvida. A moda volta como forma de conforto psicológico, sem trazer os problemas políticos e econômicos da época original. Na crise de 2009, por exemplo, até celebridades, como Kim Kardashian e Beyoncé adotaram fast fashion para não ostentar luxo nas passarelas. Naquela época, não era bem-visto você usar um artigo de luxo, era algo não ético você mostrar que você estava prosperando em uma economia tão complicada. E foi por causa dessa crise, que as Fast Fashions se popularizaram no Brasil. Hoje, o retorno do Y2K serve para lidar com as crises atuais.
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O movimento é puramente estético ou envolve um estilo de vida associado àquela época?
Envolve sim, lifestyle. Quando falamos em moda, ela necessariamente está linkada a um estilo de vida. Quando você usa ou consome algo, você também adere a comportamentos e práticas. Essa tendência carrega um lifestyle, inclusive no resgate de tecnologias antigas, como iPod, MP3 Player e CDs.
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Quais elementos dos anos 1990 e 2000 ainda não voltaram, mas você acredita que ainda podem retornar?
O que vai voltar a curto prazo eu acredito que sejam os tecidos metálicos, não tenho visto tanta gente usando nas ruas, mas eu já vi muito em passarelas da Gucci e Diesel na última Milão Fashion Week. O corporate fashion, como blazers, saias lápis, looks no estilo de “O Diabo Veste Prada” devem voltar com força em 2026. E a longo prazo, são as calças de cintura alta como reação natural ao excesso atual da cintura baixa, eu acredito que essa reação vai ser natural, pois como disse anteriormente, a moda é cíclica.
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O que as marcas estão fazendo para adaptar essas referências nostálgicas ao mercado e ao público de hoje?
Acredito que o principal seja o fato de as pessoas estarem consumindo mídias nostálgicas, seja pela estética, como o álbum debut da Addison Rae, “Addison”, como também o álbum “Brat” da Charli XCX, que trazem um pouco dessa estética, ou através do uso de figuras importantes dessa época. Tivemos recentemente o auge da Lindsay Lohan com o ‘Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda’, continuação do clássico dos anos 2000 ‘Uma Sexta-Feira Muito Louca’ e também, a continuação do ‘Diabo Veste Prada’ que vai ser lançado em 2026. Além do cinema estar trazendo os clássicos de volta, as marcas estão investindo para que essas celebridades que carregam a “energia” dos anos 90 e 2000 de volta, por serem rostos conhecidos dessa época.
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Você percebe diferenças entre o que foi tendência nos anos 1990 e 2000 no Brasil e o que era moda em outros países?
Sim. Aqui o acesso era limitado pela reserva de mercado, que foi uma política econômica que o Brasil adotou onde restringia a importação e o acesso de produtos e bens estrangeiros para proteger e desenvolver a indústria nacional. Por exemplo, a Barbie pertence a Mattel, mas os modelos mais antigos da boneca, eram produzidos pela Estrela por aqui, a Mattel demorou para chegar no país por conta dessa política. Muitas marcas estrangeiras só chegaram ao Brasil no fim dos anos 2000. Antes, consumíamos o que vinha pela TV, revistas como a Capricho e conhecidos que viajavam para o exterior e traziam algumas peças para o Brasil. Hoje, temos acesso global, fast fashions internacionais no país, como Zara e a recém-chegada H&M, e até influência brasileira no exterior, como Havaianas, Melissa e estilistas como PatBo, que veste a Beyoncé e desfila todo ano na Nova York Fashion Week.
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Se tivesse que definir o espírito dessa nostalgia em uma palavra, qual seria?
Escapismo.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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