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Procurar ajuda psicológica não é fraqueza, é coragem

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Transtorno de Estresse Pós-Traumático atinge milhões de pessoas e reforça a importância em buscar apoio especializado, como fez Rodrigo Pinheiro

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Por João Amorim

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A depressão pós-traumática é uma condição que pode surgir depois de situações de forte impacto emocional, como acidentes, perdas, abusos ou violências. Ela está muito ligada ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e traz sintomas como tristeza profunda, insônia, apatia e lembranças invasivas do trauma. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 3,9% da população mundial já teve TEPT, e esse número pode chegar a 5,6% entre quem passou diretamente por traumas. No Brasil, uma pesquisa feita pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP mostra que 3,2% das pessoas do estado de São Paulo já vivenciaram o transtorno em algum momento da vida. Nesse cenário, o papel da psicologia é essencial para o diagnóstico, no tratamento e, principalmente, no acolhimento de quem enfrenta a dor.

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A psicóloga clínica Bárbara Luna explica que a “depressão pós-traumática” não é um diagnóstico oficial, mas um termo usado para falar de sintomas depressivos ligados ao trauma. “O TEPT envolve reviver o que aconteceu, ter pesadelos e viver em constante alerta. Já a depressão pós-traumática aparece como um desânimo profundo, desesperança e isolamento. O tratamento é centrado na psicoterapia e, em alguns casos, pode incluir também medicação”, explica a psicóloga.

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Além do impacto emocional, o transtorno impacta a vida prática. Quem passa por isso muitas vezes enfrenta problemas no trabalho, afastamentos, dificuldades de convivência e até crises financeiras. “É como se a sensação de ameaça estivesse sempre presente. Isso rouba a qualidade de vida e afeta o dia a dia de forma geral”, complementa Bárbara.

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Ambientes acolhedores contribuem para que pacientes se sintam à vontade ao compartilhar experiências marcadas por traumas (Foto: João Amorim)

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A psicóloga especialista em trauma, Viviane Duran, lembra que nem todo trauma gera, automaticamente, um transtorno. “Cada pessoa reage de um jeito, dependendo de suas experiências anteriores, de fatores genéticos e do ambiente em que vive. O essencial é ter acolhimento logo nas primeiras horas, oferecendo segurança e validando o que foi vivido”, explica. Para ela, ainda falta estrutura no Brasil para esse tipo de atendimento imediato, mas já existem avanços em grandes desastres, quando equipes de apoio emocional são acionadas.

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Entre os relatos de quem já passou por situações traumáticas está o de Rodrigo Pinheiro, que enfrentou burnout no trabalho e, pouco tempo depois, a perda de um filho. Ele conta que foi a psicoterapia que o ajudou a se reerguer. “A psicologia foi uma válvula de escape para expressar o que eu não conseguia sozinho. Poucas sessões já fazem grande diferença”, diz Rodrigo e relata que, antes de procurar ajuda, sentia-se preso em um ciclo de dor e impotência. “Você acorda e a sensação é de que nada vai melhorar. Parece que a vida perde o sentido. Mas, na terapia, começo a entender que não estou sozinho, que é possível reorganizar os pensamentos e lidar com a dor de uma forma menos destrutiva”, relata.

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Rodrigo Pinheiro relata como o acompanhamento psicológico tem sido fundamental para ressignificar situações difíceis de sua vida (Foto: João Amorim)

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Para ele, um dos maiores benefícios da psicologia foi poder falar abertamente sobre sentimentos que, por muito tempo, ficaram guardados. “Quando a gente passa por uma perda, muita gente não sabe o que dizer. Na terapia, não existe certo ou errado no que você sente. Existe escuta, acolhimento e orientação. Foi isso que me deu forças para seguir em frente”, afirma. Hoje, Rodrigo defende que outras pessoas busquem o mesmo apoio. “Se você sente que não consegue lidar sozinho, não espere. Procurar um psicólogo não é fraqueza, é coragem. É dar a si mesmo a chance de viver melhor”, completa.

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Apesar dos avanços na discussão sobre saúde mental, o estigma ainda é um obstáculo. Muitas pessoas adiam a decisão de procurar terapia por medo de julgamento, o que só prolonga o sofrimento. Por outro lado, cresce a consciência de que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo. A depressão pós-traumática e o TEPT mostram que os traumas não ficam restritos ao passado: eles podem marcar a rotina, o futuro e as relações de quem sofre. Mas com apoio psicológico, rede de acolhimento e acesso ao tratamento, é possível reconstruir a vida e encontrar novos caminhos depois da dor.

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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Ana Elisa Desiderá

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