Estudo da Unicamp revela que manter vínculos, mente ativa e atitude positiva pode prolongar e melhorar qualidade de vida
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Por Nicole Gonçalves e Ana Beatriz Souza
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Sentir-se feliz com frequência pode reduzir significativamente o risco de morte. Essa é a principal conclusão de uma pesquisa realizada por médicos e pesquisadores da Unicamp, publicada na revista Cadernos de Saúde Pública. O estudo acompanhou mais de 1.500 idosos durante um período de dez anos, investigando a relação entre felicidade, limitações físicas e tempo de vida.
A pergunta que guiou a pesquisa foi direta: “Com que frequência você se sente feliz?”. Os resultados mostram que idosos que relataram baixa frequência de felicidade tiveram um risco 60% maior de mortalidade em comparação aos que se sentiam felizes com mais regularidade.
Além disso, limitações funcionais graves – como dificuldade para andar, tomar banho ou se vestir – aumentaram em quase três vezes o risco de morte. Apesar disso, o bem-estar emocional mostrou ter papel protetor: a felicidade reduziu em 14% a relação negativa entre limitações físicas e mortalidade. Em outras palavras, sentir-se feliz pode funcionar como uma espécie de “escudo” contra os efeitos do declínio físico.
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Segundo a médica e professora da Unicamp Dra. Luciana Alves Corrêa, uma vida mais longa e com qualidade está ligada a hábitos saudáveis, vínculos afetivos e atividades mentais e físicas regulares. “O que faz um idoso envelhecer com qualidade é a prática de exercício físico, uma boa alimentação e manter a mente ativa, seja com leitura de jornal, de livro, palavra cruzada, sudoku e até mesmo desenho artístico”, explica.
A especialista também ressalta que a solidão é um fator importante para a tristeza, podendo levar à depressão, independentemente da idade. “Uma família que oferece afeto faz toda a diferença. Se o idoso se sentir amado e acolhido, ficará mais tranquilo”, afirma.
Sobre o uso de telas, como televisão e celular, a Dra. Luciana acredita que o equilíbrio é essencial. “Em alguns casos, a tela faz o papel daquele familiar que não está presente naquele momento. O idoso se projeta para dentro da tela e acaba tendo uma companhia”, diz. Ela alerta, no entanto, para a necessidade de alternar o tempo diante da TV com atividades reais.
Felicidade na prática
Diversos idosos entrevistados para a matéria mostram como manter uma atitude positiva pode contribuir para a saúde.
Elisabete de Moraes, de 74 anos, diz que é muito feliz graças ao apoio da família. “Sou muito amada pela minha família e sou muito feliz. Estou viva, estou caminhando, tomando conta da minha casa. Também saio para passear, gosto de viajar e de me reunir com as amigas”, conta. Ela relata que uma leve dor no joelho não a impede de ser feliz: “Conversar, dar risada e sentar com os amigos faz sim diferença na saúde”.
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Nilza Silveira, prestes a completar 65 anos, associa sua felicidade a uma vida ativa. Participa de yoga, vôlei adaptado, teatro e coral. Mesmo enfrentando dor crônica no quadril, encontrou formas de lidar com o problema: “Procuro viver apesar disso. Meditação, respiração consciente, estudar… tudo é uma busca para que eu me conheça cada vez mais”.

Francisco Praxedes, de 84 anos, mantém a mente ativa com desafios diários. Dono de uma banca de jornal, é conhecido pela simpatia. “Sou bem-humorado. Gosto de brincar e conversar com os amigos. Sou feliz porque tenho uma família bonita e muitos amigos”, diz. Ele também assiste a programas de TV como forma de relaxar.
Beth Didone dos Santos, de 78 anos, valoriza a autonomia. Mesmo nos dias difíceis, ela cuida da própria saúde e participa de atividades sociais. “Tem dias que eu me sinto triste. Mas mantenho o meu bem-estar cuidando da minha saúde, gosto muito de conversar, de bater papo, de assistir filmes e participo de um grupo da igreja toda semana”, afirma. Beth ainda faz musculação e acompanhamento com psicólogo e gerontólogo. “Faço tudo sozinha, tomo banho, me visto, saio, tomo ônibus”.
Proposta de política pública
O estudo, intitulado “Efeito da felicidade e da incapacidade funcional na sobrevivência de idosos”, apresenta uma sugestão para as políticas de saúde pública: a inclusão de equipes multiprofissionais no SUS, com fisioterapeutas e psicólogos, voltadas especialmente ao atendimento de pessoas idosas de baixa renda. A ideia é promover o bem-estar não apenas físico, mas também emocional, como forma de garantir mais qualidade e tempo de vida.
“Promover felicidade é promover saúde”, conclui a Dra. Luciana Corrêa.
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Edição: Murilo Sacardi
Orientação: Artur Araújo

