Economia

Economia criativa cresce em Campinas em meio a desafios

Cidade precisa ainda superar gargalos institucionais e ampliar suas políticas públicas para ter progressos, avalia pesquisador

 Por: André Brito e Kaio Lima

Artesanato autoral e cultura popular na Feira Hippie de Campinas: criatividade local transformada em renda e identidade. Foto: Firmino Piton/ PMC

Campinas aposta na economia criativa como motor do desenvolvimento local, combinando cultura, inovação e sustentabilidade. Com um polo universitário, tecnológico e cultural, a cidade tem potencial para consolidar esse modelo, mas enfrenta gargalos de reconhecimento e integração entre os agentes do setor. É o que aponta a dissertação de mestrado de Pedro Henrique Marciano de Souza, defendida em 2022 na PUC-Campinas.

A economia criativa abrange atividades do campo cultural ao tecnológico, gerando emprego e renda a partir da criatividade e do capital intelectual. Campinas abriga desde marcas de moda independentes e produtoras audiovisuais até coletivos de arte urbana e startups de tecnologia, reforçando a vocação criativa local.

Projetos e eventos têm buscado integrar esses agentes. Em 2018, o festival SoulLocal reuniu dezenas de expositores de produtos artesanais e inovadores, com apoio da Unicamp e do Sebrae. Mais recentemente, a Semana Municipal de Criatividade e Inovação e o festival Criativa destacaram o talento de empreendedores de bairros periféricos, com feiras que valorizam o protagonismo feminino e a cultura das comunidades.

Além dessas iniciativas contemporâneas, Campinas conta com experiências históricas relevantes na economia criativa, como a tradicional Feira Hippie do Centro de Convivência, surgida em 1973. Reunindo mais de 300 expositores de artesanato, arte, antiguidades e culinária, a feira é um importante ponto de encontro cultural e econômico da cidade. Sua existência contínua há mais de cinco décadas reforça a ideia de que a criatividade e o empreendedorismo cultural têm raízes profundas no município.

O impacto socioeconômico dessas iniciativas alcança as regiões periféricas. Projetos como a Ozipa Criativa, no Parque Oziel, capacitam jovens em fotografia, jornalismo comunitário e marketing digital, aliando inclusão social a oportunidades de renda em áreas vulneráveis. Essa abordagem alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, promovendo trabalho decente, redução das desigualdades e comunidades sustentáveis.

Apesar desses avanços, Campinas não possui políticas públicas específicas para a economia criativa. Especialistas defendem estratégias de incentivo, desburocratização e qualificação profissional para fortalecer o empreendedorismo no setor. Entidades de apoio têm papel crucial nesse cenário. Universidades como a Unicamp e a PUC-Campinas contribuem com pesquisa e incubação de negócios inovadores.

O Sebrae é um exemplo que oferece capacitação a empreendedores, e a Agência Metropolitana de Campinas (Agemcamp) busca integrar ações em nível regional. Segundo a Firjan, Campinas tem 3,2% dos empregos formais em atividades criativas, o que já é acima da média paulista (2,4%) e atrás apenas da capital e de São José dos Campos. Esse desempenho reflete a vocação local para a criatividade e a inovação, mas a consolidação do modelo depende de maior integração entre os agentes e de políticas públicas de apoio.

Apesar dessas movimentações, na visão de Igor Oliveira, que é gestor público pela USP e atua no Sesi de Campinas, o apoio e incentivo por parte da Prefeitura ainda se dá de forma indireta, via editais com baixo orçamento. Segundo ele, a cidade tem muito potencial de virar um polo de economia criativa, porém, para isso, precisa repensar o orçamento destinado à Cultura.

Edição: Nicole Heinrich

Orientação: Artur Araujo

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