Ciência
Mestrado da PUC-Campinas analisa papel das irmandades e igrejas de Nossa Senhora do Rosário
Por: Gabriel França Rocha da Silva

Ele queria entender as raízes da influência africana dentro do catolicismo brasileiro e o resultado foi a dissertação de mestrado “A construção de uma identidade cultural religiosa afrocatólica em terras paulistas: o caso das irmandades e igrejas de Nossa Senhora do Rosário”.
Defendida ano passado no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas, a pesquisa de Caio Felipe Gomes Violin evidencia a identidade cultural-religiosa desenvolvida por escravizados no Estado.
Segundo Violin, que define essa identidade como “afrocatolicismo”, o fenômeno reflete a incorporação de práticas culturais africanas dentro da tradição católica. “Eu posso trazer, por exemplo, práticas culturais como a Congada, e tentar abordar como essa prática de dança, que a gente não vê dentro de uma igreja colonial europeia, foi incorporada “, explicou Violin.
A dissertação revela a complexa relação entre as irmandades afrocatólicas e a Igreja. A aceitação de novos membros, a organização interna e os cargos dentro das irmandades refletiam as hierarquias e a luta por reconhecimento dentro de um contexto de segregação racial. As irmandades desempenhavam um papel crucial na vida dos afrodescendentes, oferecendo um sentido de pertencimento e um espaço para a prática de sua fé e cultura.
Violin também destaca o impacto do processo de invisibilidade das contribuições negras para a formação cultural do Brasil. “Eu costumo falar que não existe Brasil sem negro. A formação cultural do Brasil é formada a partir de três populações, a população indígena, a população negra e a população europeia, a branca, fora outras denominações como a chinesa. Mas, basicamente, a partir desses três. E o negro é parte desse tripé, é uma parte essencial. A gente esquece que existe o Brasil pela força do trabalho, pelo trabalho do negro”, declarou.

A pesquisa de Violin foi conduzida utilizando uma combinação de fontes primárias e secundárias, incluindo documentos históricos, registros eclesiásticos e entrevistas com membros das comunidades afrodescendentes. A metodologia adotada permitiu uma análise aprofundada da formação e evolução das irmandades e igrejas de Nossa Senhora do Rosário.
O estudo da PUC-Campinas revela a presença dessas comunidades em 32 núcleos urbanos de São Paulo, evidenciando a disseminação e a influência da devoção à Nossa Senhora do Rosário. A análise do processo de criação, transformação e eventual extinção dessas igrejas e irmandades fornece dados sobre a evolução da identidade afrocatólica ao longo do tempo.

Além do aspecto religioso, a investigação também aborda a dimensão arquitetônica dessas construções. As capelas e igrejas de Nossa Senhora do Rosário não eram meros espaços de culto; elas representavam a materialização da resistência e da identidade afrocatólica. Estudar essas construções permite entender como a cultura africana foi inserida e adaptada dentro da paisagem urbana paulista, revelando vestígios arquitetônicos que são testemunhas de um passado de luta e fé.
Violin ressalta a importância de reconhecer essas contribuições: ” por exemplo, a Catedral Metropolitana de Campinas: a gente a vê e esquece que quem a levantou foram os negros escravizados. A gente vê um patrimônio histórico da época colonial, imperial, feita de taipa de pilão, e muitos não veem que ali tem o trabalho de escravizados. Então o negro faz parte da nossa história, da nossa cultura, do nosso reconhecimento como ser brasileiro.”
O papel das irmandades na educação catequética dos negros também é um ponto central do estudo. A catequese não era apenas um meio de conversão religiosa, mas um veículo para a transmissão de valores e conhecimentos que ajudavam a fortalecer a coesão comunitária e a identidade coletiva. A devoção à Nossa Senhora do Rosário, nesse contexto, simbolizava não apenas uma fé compartilhada, mas um laço que unia indivíduos em torno de uma causa comum. “Os negros africanos que vêm para ao Brasil de forma forçada não são objetos, mas sim seres culturais que carregam consigo sua ancestralidade em seus jeitos de ser e fazer”, destacou Violin em sua dissertação de mestrado, sublinhando a relevância contínua dessas tradições na identidade brasileira.
Orientação: Prof. Artur Araújo
Edição: Mariana Neves
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