Esportes

Moradores de Valinhos praticam tênis em projeto social

Por Isabela Meletti

Marília e os filhos Francisco e Catarina contam que a prática de tênis virou também um momento de lazer em família, já que todos praticam a modalidade (Foto: Isabela Meletti)

Marília Mamprin, artista de formação, de 40 anos, passa quase todos os fins de tarde nas quadras de tênis. Ela é mãe de Catarina, de 7 anos, e Francisco, de 5, alunos do Raquete Para Todos há dois anos. Além de levar os filhos aos treinos quatro vezes por semana, ela também é aluna do projeto e participa das aulas para adultos.

Marília, os filhos e o marido fazem parte dos 300 alunos do projeto social criado em 2007 em Valinhos por Pedro Stucchi, educador físico formado pela PUC-Campinas e professor de tênis da Prefeitura de Valinhos.

Pedro conta que o início do Raquete Para Todos se deu ao ser convidado a dar aulas de tênis no Centro de Lazer do Trabalhador “Ayrton Senna da Silva” (CLT) de Valinhos. “Com o tempo e a experiência que estava tendo lá, eu montei uma equipe de tênis com as crianças e inscrevi no Raquete de Ouro, um torneio famoso em Campinas, que era da Liga Campineira, e um garoto que levei foi campeão. Isso me inspirou a criar o projeto para que o tênis pudesse ser mais acessível e dar mais oportunidades para todos”.

As aulas acontecem nas quadras do CLT, que em setembro deste ano foi fechado para reformas. Por isso, o projeto teve que se mudar para a quadra de tênis da Praça CECAP temporariamente. A reabertura do Centro de Lazer do Trabalhador ainda não foi divulgada pela Prefeitura de Valinhos. No entanto, nem por isso os alunos de Stucchi deixaram de ir aos treinos.

O Raquete Para Todos oferece aulas para crianças de 3 anos até idosos e já teve mais de três mil alunos ao longo dos anos em que existe. Para participar das aulas é necessário ser morador de Valinhos e comprovar residência.

O projeto recebe doações de raquetes e bolas de tênis que Pedro consegue através de seus parceiros e amigos. Porém, para ganhar uma raquete, as crianças precisam comprovar boas notas nos boletins escolares. Já os adultos são incentivados a terem uma alimentação saudável para continuar no projeto. “Eu liguei as três coisas, tênis, desempenho escolar e alimentação saudável, e tem funcionado todos esses anos”.

Marília apoia a longevidade do projeto e afirma: “O projeto do Pedro traz esse esporte, que é mais elitista, para pessoas de qualquer renda. A gente, por exemplo, não poderia fazer um esporte como esse se não fosse pelo Pedro, que consegue também as doações das raquetes e bolinhas”.

“Eu gosto muito de vir aqui no tênis porque é divertido e pratico esporte, e eu estou mais motivada para estudar”, diz Gabriela Cavalheri (Foto: Isabela Meletti)

Andrea Cavalheri também faz aulas de tênis no projeto e leva a filha Gabriela Cavalheri, de 11 anos, para as aulas. Para Andrea, que sempre teve o sonho de aprender a jogar a modalidade, o projeto foi uma oportunidade de realização e prática de esporte para a filha.

“É um esporte caro, com equipamentos caros e, através desse projeto, minha filha já ganhou raquete, ganhou bolinha para treinar em casa também e tem sido muito bom para ela. Esse projeto é muito importante porque proporciona uma vida saudável e ativa, especialmente para as crianças, para que elas saiam da frente das telas”, reconheceu Andrea.

Pedro explica que para manter um projeto tão longevo como o Raquete Para Todos, é preciso muita ajuda e força de vontade, que ele diz possuir “de sobra”. O professor sustenta o projeto através das doações dos equipamentos para a prática da modalidade, enquanto a Prefeitura cede os espaços das aulas, e, quando necessário, Stucchi compra materiais com seu próprio dinheiro. 

“Eu não recebo nada por fazer isso, mas eu ganho a satisfação de ver meus alunos felizes. Essa é minha motivação. E eu acho que deu certo até agora porque o principal é fazer o que a gente gosta. Quando a gente faz uma coisa que gosta, independente da profissão, o resultado é natural”, enfatizou.

O educador físico defende que o esporte é uma das “melhores ferramentas” para inclusão social, qualidade de vida, estímulo da disciplina, interação entre pessoas, conhecimento e aprendizado através dos erros e dos acertos.

Marília Mamprin já percebe a melhora da disciplina e do desempenho escolar dos filhos, que se apaixonaram pelo tênis. Segundo ela, é “extremamente importante” que as crianças aprendam desde cedo a ter comprometimento e que o esporte é uma maneira de ensiná-las sobre isso.

“A prática do tênis criou na Catarina e no Francisco hábitos do dia a dia que eram mais dificultosos antes como ‘eu preciso estudar para ter boas notas no boletim, preciso me trocar, preciso pôr a camiseta, o tênis, pegar minha raquete, pegar minha água, porque hoje eu tenho aula de tênis e preciso ir’”, contou.

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As irmãs Giovanna Ferreira, de 20 anos, e Giulia Ferreira, de 15 anos, começaram a praticar tênis ainda crianças no projeto e atualmente competem internacionalmente.

A mãe das meninas, Daniele Ferreira, conta que as duas “tomaram gosto pelo esporte quando pequenas e seguem firmes”. Giovanna conseguiu, através do tênis, uma bolsa para estudar na Emporia State University, no Kansas, nos Estados Unidos.

Stucchi conta que o tênis “mudou a vida da família”, que se mudou do interior paulista para Curitiba, no Paraná, em função de atender às oportunidades da filha mais velha com o esporte. As meninas também já competiram em torneios de países da Europa e da América do Sul.

Agora, as irmãs irão disputar o 87º Jogos Abertos do Interior “Horácio Baby Barioni” do Estado de São Paulo representando Valinhos, que acontecem do dia 10 ao dia 20 de dezembro em Ribeirão Preto. 

De acordo com o professor Pedro, primeiro treinador de Giovanna e Giulia, por conta do potencial e atual desempenho das meninas, há grandes chances da cidade ser a campeã na modalidade na competição deste ano. “Vai ser emocionante”, afirmou animado.

Pedro é professor de tênis há 25 anos e começou a dar aulas da modalidade por conta de seu pai que também é professor do esporte (Foto: Isabela Meletti)

O sonho de Pedro é que o tênis alcance cada vez mais pessoas e se torne mais popular no Brasil. Contudo, o esporte enfrenta muitas barreiras além do preço alto dos equipamentos e da elitização. O professor explica que falta investimento do poder público em praças esportivas, equipamentos e professores, que viabilizariam a implementação da cultura do tênis no país.

Para os próximos anos ele planeja abrir um instituto ou associação para dar um salto no projeto, buscando leis de incentivo e maior autonomia. 

Projetos como o Raquete Para Todos evidenciam o papel do terceiro setor na oferta de esporte nas cidades brasileiras e a força que essas iniciativas ganham ao longo do tempo, seja ao revelar novos talentos, ou ao proporcionar lazer e saúde para a população.

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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

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