Cultura & Espetáculos Opinião

O palhaço que o racismo tentou apagar da história

OPINIÃO – Musical revive o legado de Benjamim de Oliveira, pioneiro palhaço negro, e expõe o racismo ainda presente

> 

Texto e imagens: Isabela Meletti

>

Benjamim de Oliveira. É provável que a maioria das pessoas não conheçam a figura que carrega este nome. Muito menos a importância do que fez ao longo da vida. Benjamim era um homem preto que viveu durante o fim do século XIX até a metade do século XX. Ele foi um dos primeiros palhaços negros do Brasil, precursor do circo-teatro, cantor, músico e trapezista.

>

O musical em cartaz no SESI de Campinas, Benjamim, o Palhaço Negro, com direção de Tauã Delmiro e Thalyson Rodrigues, retratou de forma descontraída e respeitosa a trajetória de Benjamim e o apagamento de sua história em função do racismo estrutural presente na sociedade brasileira.

>

Não morreu totalmente desconhecido, como outros tantos artistas negros, mas não teve seus feitos reconhecidos, lembrados e celebrados pela população da forma como deveria. A peça retrata a desproporção entre sua importância para a arte, para o circo e para o cinema e a permanência da memória de suas obras.

> 

Com alto rigor e talento dos cinco atores negros do musical, a história do palhaço é contada de modo que nos faz refletir sobre o motivo de tantas pessoas não saberem quem ele foi ou o que fez. O papel de Benjamim é interpretado por todos os atores ao longo do musical, que fazem essa troca de personagens de maneira natural e compreensível ao público.

>

A peça conta a história de vida e os sofrimentos passados por Benjamim para chegar aonde chegou. Com humor – aliás a história é a de um palhaço – e referências da atualidade o musical cumpre um papel importante: não deixar a memória de Benjamim de Oliveira se apagar em hipótese alguma.

> 

A narrativa se entrelaça com as vidas dos próprios atores que se identificam com o palhaço e interpretam a história com a verdade brutal das feridas causadas pelo racismo. Ouso dizer que não sou a maior fã de musicais, mas Benjamim, o Palhaço Negro, utiliza o gênero de forma assertiva. As cenas de música eram interpretadas com as vozes dos próprios atores, que também eram brilhantes cantores. As canções da peça foram escritas especialmente para o musical, tornando-o muito mais original.

> 

Os momentos musicais da obra foram essenciais para a fluidez da peça e não funcionava, como normalmente tenho a impressão, como uma música chata que entrava em cena para atrapalhar a narrativa da obra, mas sim como uma peça-chave para a contação da história.

>

Musical escancara o racismo presente na sociedade atual por meio de referências de situações recentes inseridas no enredo da peça

>

O musical caminha por toda a vida do palhaço negro, filho de um capitão do mato e uma escravizada doméstica. Benjamim apanhava de seu pai, tinha o sonho de entrar para o circo e fugiu, aos 12 anos, com o primeiro que chegou na cidade de Pará de Minas (MG), o Circo Sotero. O que pensou ser um grande circo na verdade era uma pequena caravana de artistas que transitava pelo interior de Minas Gerais.

>

Foi lá que aprendeu os primeiros números de trapézio e acrobacia, mas o dono do Sotero, Ricardo Ferreira Villela, batia em Benjamim, que fugiu após ficar três anos no circo de Ricardo. Chegou a viver com ciganos, mas descobriu pela filha do líder do grupo que eles queriam vendê-lo e trocá-lo por um cavalo. Fugiu novamente. Foi preso algumas vezes e sempre precisou escapar.

> 

Até que um dia foi contratado por Frutuoso, um dos donos do Circo Albano Pereira. E foi numa manhã em que Antônio Freitas, o palhaço Freitinhas, acordou doente que Frutuoso colocou Benjamim para substitui-lo como palhaço. Não queria, tentou convencer Antônio de que não era uma boa escolha, mas de nada adiantou. Levou vaias e depois batatas e ovos.

> 

Com o tempo e talento, Benjamim conquistou o público com sua versatilidade: soltava a voz, fazia graça, tocava instrumentos, sabia dar saltos, cambalhotas e piruetas e, ainda, dançava maxixe, lundu e vários outros ritmos.

> 

O sobrenome de Benjamim era Chaves, o mesmo de seu pai, Malaquias Chaves. Oliveira é uma homenagem ao artista circense que lhe ensinou a arte do circo, Severino de Oliveira.

>

Toda a história de sua vida é contada pelo musical, até o fim de sua vida e seus pontos altos, como quando passou a receber diversas propostas de circos famosos e possuía um salário de trinta mil réis por seu trabalho como circense. Um momento cômico e curioso da peça acontece quando o dono da companhia onde o palhaço trabalhava recebe a visita de um espectador que, entre outros elogios, enalteceu o número do palhaço e, em seguida, lhe deu uma nota de 5 mil réis. O dono do circo ficou tão emocionado e agradecido com a doação que nem percebeu que se tratava do presidente Floriano Peixoto.

> 

Os atores Douglas Motta, Isaac Belfort, Lakis Farias, Sara Chaves e Samuel Conze durante a cena do musical em que placas se juntam e formam a imagem de Benjamim de Oliveira

>

O musical ainda faz referências às situações atuais. Por exemplo, em dado momento os personagens brancos de um dos circos mostram os números que sabem fazer, uma delas samba de maneira desengonçada e faz o “passo” de dança de Virgínia Fonseca, a influenciadora que divulga jogos de apostas online e que é a nova rainha de bateria da escola de samba Grande Rio.

> 

O passo que Virgínia fez e a forma como ela sambou viralizou nas redes sociais por ser uma mulher branca, notoriamente sem raízes no samba e na cultura nele inserida.

>

Além dessa, outras referências atuais de racismo foram retratadas, como a campanha publicitária de uma marca de sapatos e acessórios inspirada na cultura africana protagonizada pela influenciadora branca Jade Picon em 2022. Ela, sendo branca, posou para a marca em uma campanha que homenageava mulheres negras.

> 

Com isso, o musical não deixa de revelar o quanto o a apagamento de pessoas negras e o racismo estão presentes ainda hoje, em 2025, em suas mais variadas formas na sociedade.

>

A peça utiliza muito bem os poucos recursos cenográficos, como as perucas de franjas lisas usadas pelos personagens negros para interpretar pessoas brancas. O uso constante de mímicas e onomatopeias deixa o musical muito mais rico de linguagem e expressão.

>

A quebra da quarta parede e a interação com a plateia nos últimos atos do musical são boas ideias, porém poderiam ter sido melhor executadas. Ainda assim, os diálogos estabelecidos nessa quebra são bem-humorados e fizeram o público rir alto.

>

No fim o musical deixa a mensagem mais importante da obra: todos os dias a figura de um artista preto é apagada pelo racismo, mas ela resiste em todos os artistas e pessoas pretas do país e naqueles que se propõem combater o racismo todos os dias.

>

Orientação e edição: Adauto Molck

.

.

.

.

.

.

.

Você também pode gostar...