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Autoestima feminina no enfrentamento do câncer de mama

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Por Leticia Bordinhon


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Durante o Outubro Rosa, a atenção se volta à prevenção e às marcas emocionais deixadas pelo câncer de mama. A perda de cabelo durante o tratamento vai muito além de uma mudança na aparência, ela afeta diretamente a autoestima e a identidade das mulheres que enfrentam a doença. Muitas recorrem a perucas, acessórios e maquiagem como forma de se sentirem mais seguras e de resgatar a confiança diante das transformações físicas impostas pela quimioterapia.

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De acordo com o Boletim do Registro de Câncer elaborado pelo Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa), Campinas registra cerca de 80 casos de câncer de mama  por 100 mil mulheres – a maior taxa entre os tipos de câncer feminino. Apesar disso, a mortalidade pela doença tem diminuído na metrópole. A incidência é maior entre mulheres de 60 a 69 anos, mas tem aumentado em faixas etárias mais jovens, o que reforça a importância da atenção constante à saúde feminina.

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Em 2009, aos 46 anos, a professora de inglês Paula Del Fiol descobriu o câncer de mama e iniciou o tratamento. Logo após o primeiro mês de quimioterapia, começou a ter queda de cabelo. Ela conta que, desde o dia em que recebeu o diagnóstico, vinha se preparando psicologicamente. No entanto, sempre foi uma mulher vaidosa, com cabelos longos e luzes, e por isso foi difícil encarar esse momento. 
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Na época, Paula tinha três filhos pequenos, Ana Luiza de 11 anos, João Paulo de 9 anos e Isabela de 6 anos, e sua profissão demandava contato com crianças, por isso, fez o uso de uma prótese muito parecida com seu cabelo natural: “Eu fui para São Paulo já sabendo que quando fosse cair eles iam preparar uma prótese do jeito do meu cabelo. Eles olharam o meu cabelo e tiraram fotos. Era um cabelo natural, eles prepararam, fizeram luzes, fizeram franja que eu sempre tive uma franjinha”, a professora compartilhou o motivo de ter feito a prótese: “Eu tinha medo que aquilo chocasse as crianças, não só meus filhos, mas os meus alunos. Mas, eu consegui passar por todo o meu tratamento sem contar para eles. Eles não descobriram que eu tinha nada, eu simplesmente vivi”, recorda.

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Paula usando a prótese em um café da manhã de comemoração do Dia das Mães, sentada à mesa com seus filhos (Foto: Arquivo pessoal)
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Ao fim do tratamento, Paula precisou retirar a prótese, foi quando comunicou seus filhos da mudança: “A parte mais difícil talvez foi essa, eu tive que contar para eles assim, ‘Ò, eu vou cortar meu cabelo, eu quero mudar um pouquinho meu visual’ e todos pequenos, ‘Cabelo cresce e é isso, eu quero cortar para ver como vai ficar”. No dia do corte, Paula chegou em casa e foi recebida pelos filhos: “Para eles foi um choque. O João Paulo falou: ‘Mãe você está ridícula, seu cabelo está muito feio, você não deveria ter cortado’. Ana Luísa, a mais velha, tentando amenizar dizia ‘Ai mãe está tudo certo, cabelo cresce’ e a Isabela falava ‘Mãe você é bonita de qualquer jeito’. Cada um do seu jeito. E fui seguindo a vida”, lembra.

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Ao finalizar o tratamento, Paula começou a se sentir confiante novamente: “Depois que termina tudo já começa a ter uma melhora na autoestima, porque o cabelo começa a crescer e  começa a dar aquela desinchada”, relata. 

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Por duas vezes, Delsa Tonini, 51 anos, consultora de bem estar e vendedora, encarou e venceu o câncer de mama, em  2018 e 2023. Na primeira vez, o impacto na sua autoestima a sensibilizou. “Eu sempre fui muito vaidosa, me senti muito triste, feia. A maquiagem e a peruca foram um estímulo para esse momento”, conta. Assim que fez a primeira quimioterapia, seus cabelos começaram a cair, com o passar dos dias se sentiu desconfortável com a queda e decidiu raspar. “O dia de raspar é muito difícil, minha família e uma amiga me acompanharam. Todos nós choramos”, contou. Delsa ganhou uma peruca, que fez com que ela se sentisse mais confortável, contudo, com a chegada do verão, não aguentou o calor e decidiu sair sem a peruca: “A primeira vez que saí foi constrangedor, pessoas me olhavam com um olhar de dó e muitas ficaram surpresas”, relata. 

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Delsa conta que recebeu uma peruca linda de sua médica e que a usou muito, e após o tratamento decidiu doar também. “O gesto de doar cabelos para fazer perucas com certeza ajuda muitas mulheres”, ressalta. Em 2023 o câncer voltou, e dessa vez mais agressivo, precisando passar por cirurgia e mais sessões de quimioterapia. Porém, seus cabelos não caíram dessa vez. Delsa solicitou ao médico um tratamento em que não houvesse queda dos cabelos, e assim ele o fez. Hoje, Delsa relembra as dificuldades que enfrentou: “tive momentos difíceis e muito medo, recentemente fiz a cirurgia de reconstrução da mama, sigo em fisioterapia para recuperação total”, e ao relembrar o processo, menciona o apoio da família e amigos nesse momento de fragilidade. Diante de tudo, hoje Delsa comemora: “pela segunda vez eu venci! Me sinto vitoriosa e só eu sei que não foi fácil, mas graças a Deus passou”, celebra.

O cabeleireiro Adriano Corazza realizou cortes gratuitamente para pessoas que desejam doar seu cabelo, a fim de produzir perucas para mulheres que enfrentam o câncer de mama. Todo o cabelo arrecadado será destinado à ONG Cabelegria, responsável por confeccionar as perucas. A ONG revelou que em 2025 ultrapassou 1.500 perucas doadas e contou que há um aumento de doações em outubro, graças a campanhas e ações. O evento ocorreu na manhã da sexta-feira (24), no térreo do prédio administrativo do Hospital Mário Gatti, e a ação tem como objetivo apoiar o Outubro Rosa.

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Adriano Corazza realizando o corte solidário no Hospital Mário Gatti (Foto: Leticia Bordinhon )

Filipe Brambilla, de 38 anos, esteve presente no evento e contou que quando decidiu deixar o cabelo crescer já tinha o intuito de doar: “Percebi que eu poderia estar fazendo uma boa ação quando eu fosse cortar”, e pela primeira vez, realizou essa iniciativa que pode impactar diretamente na vida de mulheres que lutam contra o câncer de mama. “Eu acho que elas ficam muito felizes por ter uma chance novamente de olhar pro espelho e ter uma autoestima elevada. Então, eu acho isso super importante e espero que mais pessoas possam aderir a essa ação social”, afirmou. 

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O cabeleireiro Adriano Corazza considera participar dessa ação social uma realização profissional. Ele acredita que faz muita diferença na vida de mulheres que passam por esse processo, por conseguir devolver a autoestima. Adriano revela que já presenciou reações marcantes e que o marcaram também, “eu já tive oportunidade de raspar no processo de câncer mesmo, no qual a gente tinha que retirar todo o cabelo. Então, a gente vê o quanto isso é doloroso para a pessoa que passa por isso, e para nós que realizamos também não é fácil. Então, fazer um movimento reverso, que no caso seria a doação para confecções, não tenho dúvida que seja de uma grande importância”, reflete. 

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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

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